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Azevedo Castelo Branco: Vi-o quando ele nasceu em uma aldeia côncava da serra do Mesio. Aos oito anos era loiro, bonito. Aos doze, fugia dos colégios e vagava errabundo nas chapadas dos montes, a contemplar com saudade e fome lá ao fundo o penacho de fumo ondulando por sobre os castanhais da sua aldeia. Aos quinze anos vivia comigo; e, quando eu o imaginava versando com mão nocturna o seu Virgílio, ele assistia no Teatro de Camões, com a insensibilidade de um Cláudio subalterno, recostado no meu camarote de assinatura, à flagelação da Arte que o saudava moribunda.
Depois, fez-se bacharel em Leis com o fastio indolente de um homem que se faz... bacharel em Leis. Acariciava as criações translúcidas de Antero de Quental, o meigo sonhador, o panteísta que chorava saudades dos deuses banidos e os ressuscitava com o fervor apóstata de Juliano. Azevedo Castelo Branco não ressuscitava ninguém; mas admirava tudo que era bom e sonoro, menos a cabra. Escreveu prosas e versos, revezando a circunspecção e a ironia, como quem, estimando ambos os feitos de escrever, preferia com especialidade não escrever nada. Cheio dos hinos de Rig-Veda e do Mahâbhârata e do Râmayna, foi administrar um concelho transmontano, onde compreendeu Schiller, na convivência que teve com salteadores. Em seguida, funcionalizou-se num governo civil, e premeditou comentar o Código Administrativo com alexandrinos, a ver se abria um sulco de poesia nas almas dos povos desde a Ovelhinha até São Gonhedo. Era tarde. O lagarto das vinhas havia afugentado de Trás-os-Montes os únicos civilizadores possíveis daquela região: Sileno e o burro. Um dia, Azevedo Castelo Branco olhou em si com atenção, e viu que era bacharel em leis autêntico. Sentou-se à banca, elevou o concelho à exorbitância de cinco tostões e sacudiu as sandálias de oficial-maior no capacho da autoridade superior do distrito.
Belo e digno rapaz, quando a musa, a devassa, te aparecer lagrimosa, limpa-lhe os olhos com o lenço escarlate e tabaqueiro do teu Pascoal José de Meio.
Camilo Castelo Branco
FRUTOS PIEDOSOS
É teu filho, Joaquina?
É verdade, meu senhor.
E esta bonita menina?...
A quem pertence esta flor?...
É minha.
Pois tu, Gracinda,
Com tão pouca idade, tens
Uma filha assim tão linda?!
Eu dou-te os meus parabéns.
Obrigado, meu senhor.
E a gordanchuda pequena?
Já é filha da Helena.
E o rapaz?
Da Leonor.
Estais todas já casadas?!...
Não senhor...
Então?
Morreram
Os noivos...
Bem sei. Coitadas!
(Pecados da mocidade,
Loucuras do coração!...)
São todas da mesma idade,
Joaquina?
Sim... nasceram...
Naquele ano da missão.
*
Ouvi dizer, Madalena,
Que há meses o teu estado
A todos dava cuidado,
A muitos causava pena.
Trazias a cor do rosto
Desmaiada, e pensativa
Andavas como cativa
Do mais intimo desgosto.
Chegara a um tal extremo
A tua melancolia
Que toda a gente dizia
Que tinhas no corpo... O Demo.
Depois o padre que veio,
De longes terras chamado,
Modificou esse estado
Com rezas, segundo creio.
Há quem diga, teime e insista
Em que o Demo se mudara
Num anjinho. E coisa rara!
Foi assim? Oh, que exorcista!...
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