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ENTRE A CICUTA E O MOSTO
NUMA EXPOSIÇÃO DE
FRANCISCO LARANJO
De que meandros de luz
intemporal se molda
esta cegueira?
Para
que vértice ou plano
inclinado apontam
estas rosáceas?
Que
pálpebras ali
nos vêem? Que
lânguidas pupilas?
GÉNESIS OU OS PAINÉIS DE AVELINO ROCHA
NO COLÉGIO DE GAIA
Eis como grávidas,
voláteis, as formas
se organizam. E a matéria
se faz seiva. E sangue.
E sal. E sol. É outra vez
manhã, primeira
infância e arca
e harpa genesíacas. O homem
tirou de si as águas,
as sementes. E ao ar e ao fogo
as lançou. Terminada
a obra, assinou
seu nome com as tintas
do arco-íris.
Oitavo dia
da criação.
"ROSA DE GUADALUPE" DE
MANUEL RIBEIRO DE PAVIA
Os olhos, luas breves
de esmeralda. Lua
de sombra, o rosto.
Rosa, a sua boca.
ARMANDO ALVES: TRÊS INSTANTANEOS
PARA A SUA PINTURA
1. O magma
decantado. O nítido
perfil da sede.
2. Se uma libélula
pousasse
agora
sobre a água,
nasceriam
flores.
3. A morte
em declive. A matriz
do fogo.
QUATRO PERGUNTAS, SEGUIDAS DE UM EPÍLOGO,
AO ESCULTOR JOSÉ RODRIGUES
1. Tens na ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre?
2. Se um besouro de asas
translúcidas entrasse
agora no poema
tu deixavas?
3. Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?
4. E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
prendê-la-ias?
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.
CRUZEIRO SEIXAS: OS DEDOS FILTRAM A SOMBRA
Entre o real e o sonho,
o sonho do real,
a realidade do sonho.
Entre a luz e a parede
oblíqua, os dedos
filtram a sombra estagnada.
Entre o disforme e o informe,
a forma
solenemente exacta.
TRÊS LEITURAS DE ( E PARA)
ANTÓNIO FERNANDO
1. O sangue todo não chega
para lavar a tela, emoldurar
as maçãs, despir
os corpos e os cornos
do touro.
É de água
azul e verde o tapete
submarino onde escreves
com algas o teu nome.
2. Velozes
os cavalos
cavalgam
a fúria
do vento.
3. Sei de uma arma
apontada
ao sexo.
Conheço os cães
que ladram
ao poder.
PARA UMA AGUARELA DE FAYGA OSTROWER
1. No perfil
da luz
a pauta a flauta
de sete cores.
2. Cisnes
de prata
lavram
a sombra
do arco-íris.
3. Mais verde
do que o verde
e mais líquido
o azul.
ROSALIA
Rosa lírica dos
jardins
da Galiza. Em tua
garganta cantam
verdes rouxinóis, a flor
do verde pino, as ondas
do mar de Vigo.
Canta,
enamorado,
um trovador
antigo.
Cantigas de amor,
cantigas de amigo.
JOSÉ RÉGIO
Onde é mais fundo
o abismo, onde mais altas
voam as pombas, onde
o touro e o cordeiro mugem
a mesma fome e deus
e o diabo urdem
a insónia da carne
dilacerada, aí,
entre sebes
de relâmpagos, tu moras, perto
dos coruchéus do tempo, irmão
das nocturnas, subterrâneas
tempestades, filho
do Homem, como tu disseste.
CESÁRIO A CONSTELAÇÃO DOS FRUTOS
Foi assim: naquele
jeito de preguiça
iluminada, os frutos
suculentos do real entraram
no poema
e o constelaram.
CAMPOS DO COURA MARINHAS
1. Alfange de água, o rio.
Rentes, as árvores. De pé.
2. Entre margens lavradas, uma cobra
busca a sua cabeça: o mar.
3. As sílabas do verde soletradas
de ramo em ramo, no alfabeto das folhas.
4. E no limite, soprado
por um vento de pedra,
um papagaio azul.
INSTANTÂNEOS NA FOZ DO MINHO,
AO ANOITECER
1. Remos
da tarde
branca
sonolenta
as gaivotas.
Asas
marinheiras
puxam
para o leito
do rio
o corpo
impúbere
da noite.
2. Pálpebras
verdes
fechadas
sobre a íris
das águas.
3. Recém-nascida
trémula
lâmpada
volátil
a noite.
QUATRO HAICAIS
1. Se houve um paraíso, foi
depois, quando a maçã
foi mordida.
2. A cabeça da lua
entre as coxas.
O sexo do luar.
3. Solitários, solidários
ambos Hermes
e Afrodite.
4. A um passo
da luz fulguram,
grávidas, as espadas.
QUATRO APONTAMENTOS
PARA UM LIVRO SEM TÍTULO
1. Um mar estanque
navega
sob os olhos.
2. Descalço
venho
para a noite.
3. A mão
desenha
o lápis.
4. Devagar.
Entre a cicuta
e o mosto.
(reprodução autorizada pelo autor)
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