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Antero de Quental (1842-1891) nasceu em Ponta Delgada, Açores. Frequentou a Universidade de Coimbra, tendo passado depois algum tempo em Paris. Viajou pelos Estados Unidos e Canadá, fixando-se em Lisboa. Pertenceu à à chamada Geração de Setenta, grupo que pretendia renovar a mentalidade portuguesa, e participou nas Conferências do Casino. Foi amigo, entre outros, de Eça de Queirós e Oliveira Martins. Atacada por uma doença do foro psiquiátrico, regressa aos Açores onde se suicida. As suas obras vão da poesia à reflexão filosófica: Raios de Extinta Luz, Odes Modernas, Primaveras Românticas, Sonetos, Prosas e Cartas. Outras páginas sobre o autor: À HISTÓRIA VI Se um dia chegaremos, nós, sedentos, A essa praia do eterno mar-oceano, Onde lavem seu corpo os pustulentos, E farte a sede, enfim, o peito humano? Oh! diz-me o coração que estes tormentos Chegarão a acabar: e o nosso engano, Desfeito como nuvem que desanda, Deixará ver o céu de banda a banda! Felizes os que choram! alguma hora Seus prantos secarão sobre seus rostos! Virá do céu, em meio de uma aurora, Uma águia que lhes leve os seus desgostos! Há-de alegrar-se, então, o olhar que chora... E os pés de ferro dos tiranos, postos Na terra, como torres, e firmados, Se verão, como palhas, levantados! Os tiranos sem conto velhos cultos, Espectros que nos gelam com o abraço... E mais renascem quanto mais sepultos... E mais ardentes no maior cansaço... Visões de antigos sonhos, cujos vultos Nos oprimem ainda o peito lasso... Da terra e céu bandidos orgulhosos, Os Reis sem fé e os Deuses enganosos! O mal só deles vem não vem do Homem. Vem dos tristes enganos, e não vem Da alma que eles invadem e consomem, Espedaçando-a pelo mundo além! Mas que os desfaça o raio, mas que os tomem As auroras, um dia, e logo o Bem, Que encobria essa sombra movediça, Surgirá, como um astro de Justiça! E, se cuidas que os vultos levantados Pela ilusão antiga, em desabando, Hão-de deixar os céus despovoados E o mundo entre ruínas vacilando; Esforça! ergue teus olhos magoados! Verás que o horizonte, em se rasgando, É porque um céu maior nos mostre e é nosso Esse céu e esse espaço! é tudo nosso! É nosso quanto há belo! A Natureza, Desde aonde atirou seu cacho a palma, Té lá onde escondidos na frieza Vegeta o musgo e se concentra a alma: Desde aonde se fecha da beleza A abóbada sem fim fé onde a calma Eterna gera os mundos e as estrelas, E em nós o Empíreo das ideias belas! Templo de crenças e de amores puros! Comunhão de verdade! onde não há Bonzo à porta a estremar fiéis e impuros, Uns para a luz... e outros para cá. A li parecerão os mais escuros Brilhantes como a face de Jeová, Comungando no altar do coração No mesmo amor de pai e amor de Irmão! Amor de Irmão! oh! este amor é doce Como ambrosia e como um beijo casto! Orvalho santo, que chovido fosse, E o lírio absorve como etéreo pasto!... Dilúvio suave, que nos toma posse Da vida e tudo, e que nos faz tão vasto O coração minguado... que admira Os sons que solta esta celeste lira! Só ele pude a ara sacrossanta Erguer, e um templo eterno para todos... Sim, um eterno templo e ara santa, Mas com mil cultos, mil diversos modos! Mil são os frutos, e é só uma a planta! Um coração, e mil desejos doudos! Mas dá lugar a todos a Cidade, Assente sobre a rocha da Igualdade. É desse amor que eu falo! e dele espero O doce orvalho com que vá surgindo O triste lírio, que este solo austero Está entre urze e abrolhos encobrindo. Dele o resgate só será sincero... Dele! do Amor!... enquanto vais abrindo, Sobre o ninho onde choca a Unidade, As tuas asas de águia, ó Liberdade!
PANTEÍSMO I Aspiração... desejo aberto todo Numa ânsia insofrida e misteriosa... A isto chamo eu vida: e, deste modo, Que mais importa a forma? silenciosa Uma mesma alma aspira à luz e ao espaço Cm homem igualmente e astro e rosa! A própria fera, cujo incerto passo Lá vaga nos algares da devesa, Por certo entrevê Deus seu olho baço Foi feito para ver brilho e beleza... E se ruge, é que a agita surdamente Tua alma turva, ó grande natureza! Sim, no rugido há vida ardente, Uma energia íntima, tão santa Como a que faz trinar a ave inocente... Há um desejo intenso, que alevanta Ao mesmo tempo o coração ferino, E o do ingénuo cantor que nos encanta... Impulso universal! forte e divino, Aonde quer que irrompa! e belo e augusto, Quer se equilibre em paz no mudo hino Dos astros imortais, quer no robusto Seio do mar tumultuando brade, Com um furor que se domina a custo, Quer durma na fatal obscuridade Da massa inerte, quer na mente humana Sereno ascenda à luz da liberdade... É sempre a eterna vida, que dimana Do centro universal, do foco intenso, Que ora brilha sem véus, ora se empana... É sempre o eterno gérmen, que suspenso No oceano do Ser, em turbilhões De ardor e luz, envolve, ínfimo e imenso! Através de mil formas, mil visões, O universal espírito palpita Subindo na espiral das criações! Ó formas! vidas! misteriosa escrita Do poema indecifrável que na Terra Faz de sombras e luz a Alma infinita! Surgi, por céu, por mar, por vale e serra! Rolai, ondas sem praia, confundindo A paz eterna com a eterna guerra! Rasgando o seio imenso, ide saindo Do fundo tenebroso do Possível, Onde as formas do Ser se estão fundindo Abre teu cálix, rosa imarcescível! Rocha, deixa banhar-te a onda clara! Ergue tu, águia, o voo inacessível! Ide! crescei sem medo! não é avara A alma eterna que em vós anda e palpita Onda, que vai e vem e nunca pára! Semeador de mundos, vai andando E a cada passo uma seara basta De vidas sob os pés lhe vem brotando! Essência tenebrosa e pura... casta C todavia ardente... eterno alento! Teu sopro é que fecunda a esfera vasta... Choras na voz do mar... cantas ao vento... II Porque o vento, sabei-o, é pregador Que através dos soidões vai missionando A eterna Lei do universal Amor. Ouve-o rugir por essas praias, quando, Feito tufão, se atira das montanhas, Como um negro Titã, e vem bradando... Que imensa voz! que prédicas estranhas! E como freme com terrível vida A asa que o livra cm extensões tamanhas! Ah! quando em pé no monte, e a face erguida Para a banda do mar, escuto o vento Que passa sobre mim a toda a brida, Como o entendo então! e como atento Lhe escuto o largo canto! e, sob o canto, Que profundo e sublime pensamento! Ei-lo, o Ancião-dos-dias! ei-lo, o Santo, Que já na solidão passava orando, Quando inda o mundo era negrume e espanto! Quando as formas o orbe tenteando Mal se sustinha e, incerto, se inclinava Para o lado do abismo, vacilando; Quando a Força, indecisa, se enroscava Às espirais do Caos, longamente, Da confusão primeira ainda escrava; Já ele era então livre! e rijamente Sacudia o Universo, que acordasse... Já dominava o espaço, omnipotente! Ele viu o Princípio. A quanto nasce Sabe o segredo, o germe misterioso. Encarou o Inconsciente face a face, Quando a Luz fecundou o Tenebroso. III Fecundou!... Se eu nas mãos tomo um punhado Da poeira do chão, da triste areia, E interrogo os arcanos do seu fado, O pó cresce em mim... engrossa... alteia... E, com pasmo, nas mãos vejo que tenho Um espírito! o pó tornou-se ideia! Ó profunda visão! mistério estranho! Há quem habita ali, e mudo e quedo Invisível está... sendo tamanho! Espera a hora de surgir sem medo, Quando o deus encoberto se revele Com a palavra do imortal segredo! Surgir! surgir! é a ânsia que os impele A quantos vão na estrada do infinito Erguendo a pasmosíssima Babel! Surgir! ser astro e flor! onda e granito! Luz e sombra! atracção e pensamento! Um mesmo nome em tudo está escrito... ........................................... Eis quanto me ensinou a voz do vento. 1865-1874 TENTANDA VIA I Com que passo tremente se caminha Em busca dos destinos encobertos! Como se estão volvendo olhos incertos! Como esta geração marcha sozinha! Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro! A noite, longa! o dia, duvidoso! Vai o giro dos céus, vem vagaroso... Vem longe ainda a praia do futuro... É a grande incerteza, que se estende Sobre os destinos dum porvir, que é treva... É o escuro terror de quem nos leva... O futuro horrível que das almas pende! A tristeza do tempo! o espectro mudo Que pela mão conduz... não sei aonde! Quanto pode sorrir, tudo se esconde... Quanto pode pungir, mostra-se tudo. - Não c a grande luta, braço a braço, No chão da Pátria, à clara luz da História... Nem o gládio de César, nem a glória... É um misto de pavor e de cansaço! Não é a luta dos trezentos bravos, Que o solo amado beijam quando caem... Crentes que traz um Deus, e à guerra saem, Por não dormir no leito dos escravos... É a luta sem glória! é ser vencido Por uma oculta, súbita fraqueza! Um desalento, uma íntima tristeza Que à morte leva... sem se ter vivido! Não há aí pelejar... não há combate... Nem há já glória no ficar prostrado São os tristes suspiros do Passado Que se erguem desse chão, por toda a parte... É a saudade, que nos rói e mina E gasta, como à pedra a gota d'água... Depois, a compaixão, a íntima mágoa De olhar essa tristíssima ruína... Tristíssimas ruínas! Entristece E causa dó olhá-las a vontade Amolece nas águas da piedade, E, em meio do lutar, treme e falece. Cada pedra, que cai dos muros lassos Do trémulo castelo do passado, Deixa um peito partido, arruinado, E um coração aberto em dois pedaços! II A estrada da vida anda alastrada De folhas secas e mirradas flores... Eu não vejo que os céus sejam maiores, Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada! Ah! via dolorosa é esta via! Onde uma Lei terrível nos domina! Onde é força marchar pela neblina... Quem só tem olhos para a luz do dial Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora... É de noite que os tristes se procuram, E paz e união entre si juram... Irmãos! irmãos! amemo-nos agora! E vós, que andais a dores mais afeitos, Que mais sabeis à Via do Calvário Os desvios do giro solitário, E tendes, de sofrer, largos os peitos; Vós, que ledes na noite... vós, profetas... Que sois os loucos... porque andais na frente... Que sabeis o segredo da fremente Palavra que dá fé ó vós, poetas! Estendei vossas almas, como mantos Sobre a cabeça deles... e do peito Fazei-lhes um degrau, onde com jeito Possam subir a ver os astros santos... Levai-os vós à pátria-misteriosa, Os que perdidos vão com passo incerto! Sede vós a coluna de deserto! Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa! III Sim! que é preciso caminhar avante! Andar! passar por cima dos soluços! Como quem numa mina vai de bruços Olhar apenas uma luz distante! É preciso passar sobre ruínas, Como quem vai pisando um chão de flores! Ouvir as maldições, ais e clamores, Como quem ouve músicas divinas! Beber, em taça túrbida, o veneno, Sem contrair o lábio palpitante! Atravessar os círculos do Dante, E trazer desse inferno o olhar sereno! Ter um manto da casta luz das crenças, Para cobrir as trevas da miséria! Ter a vara, o condão da fada aérea, Que em ouro torne estas areias densas! É, quando, tem temor e sem saudade, Puderdes, dentre o pó dessa ruína, Erguei o olhar à cúpula divina, Heis-de então ver a nova-claridade! Heis-de então ver, ao descerrar do escuro, Bem como o cumprimento de um agouro, Abrir-se, como grandes portas de ouro, As imensas auroras do Futuro! IDÍLIO Quando nós vamos ambos, de mãos dadas, Colher nos vales lírios e boninas, E galgamos dum fôlego as colinas Dos rocios da noite inda orvalhadas; Ou, vendo o mar das ermas cumeadas Contemplamos as nuvens vespertinas, Que parecem fantásticas ruínas Ao longo, no horizonte, amontoadas: Quantas vezes, de súbito, emudeces! Não sei que luz no teu olhar flutua; Sinto tremer-te a mão e empalideces O vento e o mar murmuram orações, E a poesia das coisas se insinua Lenta e amorosa em nossos corações. A UM POETA (surge et ambula) Tu que dormes, espírito sereno, Posto à sombra dos cedros seculares, Como um levita à sombra dos altares, Longe da luta e do fragor terreno. Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno Afugentou as larvas tumulares… Para surgir do seio desses mares Um mundo novo espera só um aceno… Escuta! É a grande voz das multidões! São teus irmãos, que se erguem! São canções… Mas de guerra… e são vozes de rebate! Ergue-te, pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz do sonho puro, Sonhador, faze espada de combate! HINO À RAZÃO Razão, irmã do Amor e da Justiça, Mais uma vez escuta a minha prece. É a voz dum coração que te apetece, Duma alma livre só a ti submissa. Por ti é que a poeira movediça De astros, sóis e mundos permanece; E é por ti que a virtude prevalece, E a flor do heroísmo medra e viça. Por ti, na arena trágica, as nações buscam a liberdade entre clarões; e os que olham o futuro e cismam, mudos, Por ti podem sofrer e não se abatem, Mãe de filhos robustos que combatem Tendo o teu nome escrito em seus escudos! O PALÁCIO DA VENTURA Sonho que sou um cavaleiro andante. Por desertos, por sóis, por noite escura, Paladino do amor, busco anelante O palácio encantado da Ventura! Mas já desmaio, exausto e vacilante, Quebrada a espada já, rota a armadura… E eis que súbito o avisto, fulgurante Na sua pompa e aérea formosura! Com grandes golpes bato à porta e brado: Eu sou o Vagabundo, o Deserdado… Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! Abrem-se as portas d’ouro com fragor… Mas dentro encontro só, cheio de dor, Silêncio e escuridão - e nada mais! CONSULTA Chamei em volta do meu frio leito As memórias melhores de outra idade, Formas vagas, que às noites, com piedade, Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito… E disse-lhes: No mundo imenso e estreito Valia a pena, acaso, em ansiedade Ter nascido? Dizei-mo com verdade, Pobres memórias que eu ao seio estreito. Mas elas perturbaram-se coitadas! E empalideceram, contristadas, Ainda a mais feliz, a mais serena… E cada uma delas, lentamente, Com um sorriso mórbido, pungente, Me respondeu: Não, não valia a pena! LACRIMAE RERUM Noite, irmã da Razão e irmã da Morte, Quantas vezes tenho eu interrogado Teu verbo, teu oráculo sagrado, Confidente e intérprete da Sorte! Aonde são teus sóis, como coorte De almas inquietas, que conduz o Fado? E o homem porque vaga desolado E em vão busca a certeza que o conforte? Mas, na pompa de imenso funeral, Muda, a noite, sinistra e triunfal, Passa volvendo as horas vagarosas… É tudo, em torno a mim, dúvida e luto; E, perdido num sonho imenso, escuto O suspiro das coisas tenebrosas… A GERMANO MEIRELES Só males são reais, só dor existe: Prazeres só os gera a fantasia; Em nada[, um] imaginar, o bem consiste, Anda o mal em cada hora e instante e dia. Se buscamos o que é, o que devia Por natureza ser não nos assiste; Se fiamos num bem, que a mente cria, Que outro remédio há [aí] senão ser triste? Oh! Quem tanto pudera que passasse A vida em sonhos só. E nada vira… Mas, no que se não vê, labor perdido! Quem fora tão ditoso que olvidasse… Mas nem seu mal com ele então dormira, Que sempre o mal pior é ter nascido! O CONVERTIDO Entre os filhos dum século maldito Tomei também lugar na ímpia mesa, Onde, sob o folgar, geme a tristeza Duma ânsia impotente de infinito. Como os outros, cuspi no altar avito Um rir feito de fel e de impureza… Mas um dia abalou-se-me a firmeza, Deu-me um rebate o coração contrito! Erma, cheia de tédio e de quebranto, Rompendo os diques ao represo pranto, Virou-se para Deus minha alma triste! Amortalhei na Fé o pensamento, E achei a paz na inércia e esquecimento… Só me falta saber se Deus existe! MORS-AMOR Esse negro corcel, cujas passadas Escuto em sonhos, quando a sombra desce, E, passando a galope, me aparece Da noite nas fantásticas estradas, Donde vem ele? Que regiões sagradas E terríveis cruzou, que assim parece Tenebroso e sublime, e lhe estremece Não sei que horror nas crinas agitadas? Um cavaleiro de expressão potente, Formidável mas plácido no porte, Vestido de armadura reluzente, Cavalga a fera estranha sem temor: E o corcel negro diz «Eu sou a morte», Responde o cavaleiro: «Eu sou o Amor». EVOLUÇÃO Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo tronco ou ramo na incógnita floresta… Onda, espumei, quebrando-me na aresta Do granito, antiquíssimo inimigo… Rugi, fera talvez, buscando abrigo Na caverna que ensombra urze e giesta; O, monstro primitivo, ergui a testa No limoso paul, glauco pascigo… Hoje sou homem, e na sombra enorme Vejo, a meus pés, a escada multiforme, Que desce, em espirais, da imensidade… Interrogo o infinito e às vezes choro… Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro E aspiro unicamente à liberdade. ESPIRITUALISMO Junto do mar, que erguia gravemente A trágica voz rouca, enquanto o vento Passava como o voo dum pensamento Que busca e hesita, inquieto e intermitente, Junto do mar sentei-me tristemente, Olhando o céu pesado e nevoento, E interroguei, cismando, esse lamento Que saía das coisas vagamente… Que inquieto desejo vos tortura, Seres elementares, força obscura? Em volta de que ideia gravitais? Mas na imensa extensão onde se esconde O inconsciente imortal só me responde Um bramido, um queixume e nada mais. COM OS MORTOS Os que amei, onde estão? Idos, dispersos, arrastados no giro dos tufões, Levados, como em sonho, entre visões, Na fuga, no ruir dos universos… E eu mesmo, com os pés também imersos Na corrente e à mercê dos turbilhões, Só vejo espuma lívida, em cachões, E entre ela, aqui e ali, vultos submersos… Mas se paro um momento, se consigo Fechar os olhos, sinto-os a meu lado De novo, esses que amei vivem comigo, Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também, Juntos no antigo amor, no amor sagrado, Na comunhão ideal do eterno Bem. NOX Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos... Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia... O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos... Oh! Antes tu também adormecesses Por uma vez, e eterna, inalterável, Caindo sobre o Mundo, te esquecesses, E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver, Dormisse no teu seio inviolável, Noite sem termo, noite do Não-ser! SOLEMNIA VERBA Disse ao meu coração: Olha por quantos Caminhos vãos andámos! Considera Agora, desta altura, fria e austera, Os ermos que regaram nossos prantos... Pó e cinzas, onde houve flor e encantos! E a noite, onde foi luz a Primavera! Olha a teus pés o mundo e desespera, Semeador de sombras e quebrantos! Porém o coração, feito valente Na escola da tortura repetida, E no uso do pensar tornado crente, Respondeu: Desta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão, se isto é vida, Nem foi demais o desengano e a dor. |
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