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Brás Luís de Abreu é o protagonista de um romance ordinário intitulado Olho de Vidro. Para se informarem da vida tempestuosa deste médico de Aveiro não lhes inculco o romance; antes lhes aconselho que leiam o Portugal Médico, do infeliz doutor, que, ao sol-poente da idade, vestiu o burel de frade, penitenciando-se por ter casado, por equívoco, com uma irmã. Entre excelentes receitas, deparam-se ao leitor do Portugal Médico poesias mais saudáveis que as drogas. A história das quadras feitas a uma D. Cláudia vem referida na novela.

Camilo Castelo Branco



A UMA PELADA

Mulher, nesse teu desgarro,
Um Nabuco às vezes és;
Porque, tendo d’ouro os pés,
Tens a cabeça de barro.

Se alguma pedra travessa
Te quisesse derrubar,
Era preciso acertar
Mais que nos pés na cabeça.

Porque, se pelo mais fraco
Estala a corda mais grossa,
Quem quiser que estales, moça,
Há de cascar-te no caco.

Mais flamantes do que um ouro,
Mais lisa do que uma ostra,
A cabeça a coura mostra,
Os pés vão mostrando o couro.

Dize-me com que destino
Mesclas nessa estatua vã
Entre afectos de cristã
Heresias de Calvino?

Sem monho, e com cara alva,
Sais a toda a ocasião;
E vejo que tens razão,
Porque a ocasião é calva.

Sendo mal encabelada,
Para que andas, dize, à péla,
Se ninguém por ti se pela,
Por mais que venhas pelada?

Vai-te, e pede a Deus, ó louca,
Que te dê, com toda a pressa,
Cabelos para a cabeça
Em vez de pão para a boca.

Ao padre-nosso à porfia
Pede que te escabelize
E em vez de pão nosso, dize:
Cabelos de cada dia.



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