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Fernando Caldeira: Acerca de pés, poesia tão imbrincada, tão fagueira, tão dengue, com tantos suspiros e aromas e beijos e quindins, ninguém a urdiu como este poeta. Fazer de um composto do tarso, metatarso, falanges, músculos, nervos e cartilagens um tecido de frases tão ternas e lânguidas, isso, para mim, tem mais engenho e poesia, mais ideal e estética, mais perrexil e atavios, que os dois pés reais da dona do pé cantado.
Esta poesia em Inglaterra seria inverosímil. Ninguém diz em Inglaterra pé grande: evitam-se cautelosamente os pleonasmos num pais onde o tempo é dinheiro e as palavras de mais são desperdícios. Tenho a colecção dos poetas britânicos de Samuel Johnson. São sessenta e oito tornos. Pois não há poeta, um só, que cante um pé de inglesa, nem de ninguém.
O próprio Byron, posto que desdenhoso da sua pátria, respeitava por tanta maneira os pés das senhoras suas patrícias que, nas poesias enviadas às suas amadas italianas, ou lhes não falava nos pés, ou, se a rima o obrigava, abstinha-se de lhes chamar pequenos. Aqui tenho um exemplo à mão. É uma poesia à condessa Guiccioli, que devia ter um pé benemérito das carícias de Fernando Caldeira. Diz Byron, com os olhos postos no rio Pó: «A corrente que meus olhos seguem irá lamber as muralhas da sua terra natal e murmurar-lhe aos pés.»
The current y behold will sweep beneath
Her native walls, and murmur at her feet.
Feet somente. Um poeta qualquer, que não fosse insular e um pouco coxo, não deixaria de adjectivar aqueles pés. Parece que os meteu na estância por causa da rima eath.
Ainda bem que o meu prezado Fernando Caldeira floresce numa região em que, se por capricho quiser cantar um pé grande, tem de passar com a fantasia o canal da Mancha.
Camilo Castelo Branco
UNS PEZINHOS
Cismo, cismo e não sei inda
como tu, sendo tão linda
e tão vaidosa de o ser,
tens ai no chão pousados
os teus pezinhos coitados!
aí como uns pés quaisquer!...
Eu não sei, não compreendo,
quando te vejo correndo,
mesmo que vás devagar,
como uns pés tão pequeninos,
tão delicados, tão finos,
assim te podem levar!
Faz-me pena, coitaditos!
tão galantes, tão bonitos,
vê-los assim pelo pó!...
Muita pena!... ainda ao menos
se não fossem tão pequenos...
mas assim faz mesmo dó!...
Ainda se toda a estrada
te fosse ao menos juncada
de rosmaninho e alecrim,
como a santa da capela
quando sai no andor, mas ela
nunca teve uns pés assim!...
Olha! às vezes endoudeço
quando tos vejo, e apeteço
duas semanas... um mês...
dois meses... nem sei eu quanto,
ser um sapato, contanto
que tu me tragas nos pés!...
Às vezes, quando à tardinha
tu vais cismando sozinha
por sobre a relva ao de leve,
suspira cada folhita
d’inveja a mais pequenita
que o teu pezinho conteve!
E se paras distraída
junto d’alva margarida,
ou malmequer, ou bonina,
faz gosto ver o jeitinho
com que a flor torce o pezinho
e sobre um dos teus s’inclina!
Que amor! que amor, ó meu Deus!
e não é por serem teus
que os amo tanto, não é...
Esse teu pé pequenino
foi obra dalgum destino
que eu tenha de amar um pé.
Mais ai! são tão desdenhosos!
mostram-se assim descuidosos,
mas eu conheço, eu bem sei...
mil beijos, que me rejeitam,
nem por tapete os aceitam,
pobre de mim, que os sonhei!
E verás que dentro em pouco
nem sei da cabeça, louco
por ele... e seus desdéns!...
Que tu também, coitaditos!
tens uns pés tão pequenitos
que por um triz que os não tens.
Esconde-me esses traidores,
esconde-mos. Sedutores!...
nem são pés, são um feitiço!...
Esconde-me esses ingratos,
nem as pontas dos sapatos
quero ver-lhes, antes isso.
Que hei-de eu fazer, quando os vejo,
a tanto faminto beijo
que tos quisera calçar?
que nem os peixes no rio
se juntam tanto a fio
na veia d’água a brincar?
S’inda fosse a tua meia
destes peixes rede cheia
quando a fosses vestir,
e em cada malha embrulhado
ficasse bem emalhado
ao menos um sem cair!
Ou, ao menos, se as pedrinhas
onde os pões quando caminhas
fossem todos beijos meus,
que, nem indo a pé descalço,
pusesses um pé em falso...
mas assim!... valha-me Deus!
Olha, a dizer-te a verdade,
eu acho que é crueldade
deixá-los ir pelo chão...
Se queres, poupa-lhes passos,
levo-te a ti num dos braços
e eles ambos noutra mão.
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