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Cláudio José Nunes: Escrevia versos franceses como Vítor Hugo e versos portugueses como nenhum dos seus coevos em Portugal. Nem pétala de flor lírica.

As Cenas Contemporâneas, condignamente prefaciadas por Latino Coelho, são poesia de alta meditação, muito deste tempo, viril, realista, mas cheia de augusto ideal, singularmente filosófico. Não temos outro livro sério com que possamos provar que neste país alguém comungara com os grandes pensadores e dera à poesia, menosprezada por fútil, a força de uma alavanca no desmantelamento do edifício velho. Não desmantelou nada; porque em Portugal – ó felicidade da Rua das Hortas e dos Algibebes! – os sapadores nutrem-se da ciência dos seus direitos, a dez réis, e da ciência dos seus deveres, nas eleições, a quartinho o voto e vinho à discrição.

Cláudio José Nunes cantou o boticário Franco de Belém em quintilhas tolentinianas, menos amelaçadas que o xarope de James – poesia que o sobredito boticário manipula em laboratório misterioso, quando não pisa leis no almofariz de S. Bento, que mistura e manda, segundo a fórmula constitucional e farmacêutica, para o presidente. Franco rivalizava com Cláudio José Nunes em influências eleitorais na assembleia de Belém. O citrato de magnésio deu-lhe a maioria a Franco. Laxaram-se nele as simpatias e consciências quase todas. Cláudio Nunes tinha muito espírito e grande dignidade; mas não dispunha dos drásticos.

Ele morreu na opulência do talento aos quarenta anos de idade. Há muito que não li palavra que recorde o assombroso poeta. Envergonho-me de lhes perguntar se o conhecem.

Camilo Castelo Branco



O POETA

(A LUÍS DE CAMPOS)

Não te iludas, Luís; isto de fazer versos
Não leva a gente longe.
Outros e mui diversos
São os caminhos bons para subir aos cumes
Onde os raios do mundo, e da riqueza os lumes,
Aquecem os botões, que em rosas se desatam.
Esqueces-te, Luís, talvez, do que relatam
As crónicas fiéis de gente grave e séria
Acerca da peçonha amarga e deletéria
A que poetas chama, engatilhando os lábios
Num gesto de desprezo, uma porção de sábios
Que engorda o pão de Deus, para felicidade
Quer do reino do Céu, ou quer da humanidade.
Por elas se conhece o quanto é necessário
De cabelo espetado e sujo vestuário,
De preguiça, de vício, e malvadez sem conto
– De tudo quanto é mau – para fazer de pronto
Um desses aleijões, raça bastarda e informe
Que leva a alma devassa até ao ponto enorme
De amar os rouxinóis, as flores, os afagos,
As estrelas do céu, o espelho azul dos lagos,
A criancinha loura em que dorme esquecida,
Por ora, a podridão sob o arrebol da vida!
Numa palavra: tudo o que a moral detesta,
Quando, garganta nua e pó-de-arroz na testa,
Por detrás do seu leque, e atrás das bambinelas,
Conversa, folga e ri coas tímidas donzelas:
Política, e finança, e farda, e beca, e estola,
Ou qualquer outra dama honesta, e de alta escola,
Que ampara o seu pudor, deitando-lhe d’espeques
As frinchas do charão dos arrendados leques!
Luís – quando se sente após um dia gasto
Em labutar tristonho, inútil ou nefasto,
Que é necessário abrir as válvulas da mente
Para que, concentrada a chama inteligente
Num círculo de dor, e pela dor soprada,
Como a pólvora quebra o globo da granada,
Não partam à razão as explosões da ideia –
Isto de se evocar a pálida coreia
Das rimas dentre o pó, em que as sepulta o mundo,
Deve ser, com certeza, o início mais profundo
De uma devassidão, tão negra e tão medonha,
Que deverá tingir, no rubro da vergonha,
A gente que nessa hora engraxa algum calçado
Com a grã-cruz ao peito, ou lança no mercado
Alguns frangalhos vis da rota consciência?
Fazer versos, Luís! pois há maior demência
Do que estragar papel com esta ninharia
Nuns tempos em que até a última senhoria,
Vindo do chafariz, ou não se sabe donde,
Morreu por fim às mãos do universal visconde?
Sempre é preciso ter, para esta faina impura,
Bem duro o coração e a ideia inda mais dura!
Pois, quando espavorida em meio de trabalhos
– Como a cansada pomba em cima dos carvalhos
Forceja por pousar as fatigadas penas –,
Forceja a alma também por encontrar apenas
Um tronco onde repouse os voos arquejantes;
Em lugar de a embeber nos lumes rutilantes
Dos espaços azuis, atrás de alguma estrela,
Não vale mais, Luís em baixo aqui prendê-la
Aos lábios sensuais de alguma Messalina,
Ou às farpas, talvez, da língua viperina
Que, em meio às trevas, morde em tudo o que a rodeia?
Não vale mais jungi-la aos lábios da sereia
Que canta à moça pobre essa cantiga leda
Do tlintim da libra, ou do frufru da seda?
Isso sim, meu Luís tudo isso é que é fidalgo!
Mas morrer a alma após, esbaforido galgo,
De uma ideia de amor até à poesia,
Isso é mui próprio só da truculenta harpia
Do verso, tão faminta e de olho tão imundo,
Que até devora a mesa em que consoa o mundo?
Versos? pois por cada um que vem juntar-se-á conta
– Atónita, surpresa, espavorida e tonta –
Não vela a face a lei na banca do advogado?
Por cada verso mais no limbo profundado,
Não surge mais um padre atrás da medicina?
Por cada cantilena, ou grande ou pequenina,
Não passa em contrabando uma porção de fardos?
A rosa alva do amor não se transforma em cardos,
Quando a haste lhe humedece aquele nevoeiro?
Pois, se não fosse o verso, a cada conselheiro
Não tocara um conselho, ou pomo inteiro, ou lasca,
Que nos justificasse o rótulo da casca?
A política sempre, um pouco mais polida,
Não falaria bem alguma vez na vida?
6 verso, emanação do Inferno, torpe e rude,
Deixa arder à vontade os fogos da virtude!
Pelo que fica dito, é claro a toda a gente
Que ser poeta é ser um monstro que somente
Se pode consentir por mera tolerância.
Torna-se pois decente, e de maior instância,
Cavar-lhe funda cova onde desapareça.
Os manes de Catão lhe pedem a cabeça.
Deferida. Depois, à vala infame o busto!
Enquanto que o censor, inchando o papo augusto,
Para poder trepar aos cumes do universo,
Basta que faça... em prosa o que atribui... ao verso!

 
 
EM QUE PARARAM AS MUSAS

Qual de Clavileflo outrora
Desmontado o herói manchego,
Quem vos viu e vê agora, corte o deus da aurora!
Bas bleus do Parnaso grego?

Moças que, no tempo airado
Das velhas Arcádias lusas,
Trazíeis pó no toucado,
Quando até, por desenfado,
Pastáveis os bois, ó musas!

Gamos que, dos tabuleiros
De Le-Nôtre, e em curto exílio,
Dos caçadores matreiros
Fugíeis para os salgueiros
Com os seis pés de Virgílio!

Desde que Pégaso explora
Os varais da prosa rasa
A seiscentos réis por hora,
Como, ó lindas! por aí fora
Levou volta a vossa casa?

E, com tombas no coturno,
Já cada uma de vós lida
Por achar no antro soturno
Deste mundo qualquer turno
De dar algum modo à vida?

Pobre adela paralítica,
Melpómene, a da tragédia,
Vende fato velho à crítica;
E botou centro, política,
A outra mana da comédia?

Terpsícore, a picaresca,
Fabrica pastas na Lua,
E a da música, mui fresca
Da janela offenbachesca
Tosse a quem passa na rua!

A alta Clio é vendedeira
De jornais de miscelânea!
É a Érato inculcadeira!
E vive numa trapeira
Do Largo da Estrela a Urânia!

Calíope ata na argola
Um ramo de louro ao vento;
E Polímnia pede esmola,
De muleta e de sacola,
À porta do Parlamento!

Qual de Clavileño outrora
Desmontado o herói manchego,
Quem vos viu e vê agora,
Ó corte do deus da aurora!
Bas blues do Parnaso grego!


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