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José Anastácio da Cunha (1744-1787) nasceu em Lisboa e seguiu a carreira das armas. Esteve algum tempo a fazer serviço em Valença como oficial de artilharia, sendo nomeado pelo Marquês de Pombal lente da Universidade de Coimbra devido aos seus profundos conhecimentos de Matemática. Além de obras sobre essa disciplina, escreveu poesia. É considerado um dos pré-românticos portugueses. As suas obras poéticas foram publicadas em 1836 sob o título de Composições Poéticas. Em 1826 foi publicada em Paris A Voz da Razão. 1 Tantos anos de amor na prisão dura. padecendo martírios cento a cento. já sair não espero da amargura. nem para me queixar já tenho alento. Informam-te da minha desventura os ecos dos meus ais. Ah ! Se algum vento, benigno a teus ouvidos, porventura, levar alguns, tem dó do meu tormento. Se deres algum pranto à crueldade do meu mal, poderei menos senti-lo: teu pranto abrandará sua impiedade. Louco, que peço? Basta que, ao ouvi-lo. te enterneças. Ao menos, por piedade, basta que digas: Mísero Mertilo? 2 Ditoso o que em paternas, poucas jeiras seus desejos encerra e seus cuidados, e respira, contente, o ar nativo em terra sua! Seus gados lhe dão leite; pão seus campos; seus rebanhos vestido; pelo Estio, acha nas próprias árvores a sombra; de Inverno, o lume. Correm-lhe em um desleixo abençoado suavemente as horas, dias e anos: com saúde no corpo, paz no espírito vela tranquilo. A sono solto dorme; o estudo e cómodo possui unidos lícito recreio - e com a meditação mais saborosa goza o retiro. Deixem-me assim viver, desconhecido; deixem-me assim morrer, sem ser chorado, do mundo homiziado e sem que a campa diga onde jazo. |
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