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Fernando Echevarría nasceu a 26 de Fevereiro de 1929 em Cabezón de la Sal. Cursou Humanidades em Portugal, Filosofia e Teologia em Espanha. Exilado em Paris desde 1961, parte para Argel a fins de 1963, regressando àquela cidade em meados de 66. Aí reside desde então. Obras publicadas: Antologias Antologias Colaborou Prémios Está traduzido em francês, castelhano, inglês e romeno. Bibliografia passiva Sobre a sua obra diz Robert Bréchon em La Littérature Portugaise de Georges Le Gentil: «L'euvre que Fernando Echevarría (1929) édifie avec patience depuis plus de trente ans n'a pas d'équivalent dans la poésie européenne d'aujourd'hui. À demi espagnol, d'abord destiné à la prêtrise, vivant depuis longtemps à Paris, il trace d'un trait sûr, dans une forme impeccable (beaucoup de ses poèmes sont des sonnets), les figures de la transcendance et du sacré. Rien de circonstanciel, de sentimental ou de sensuel dans cette poésie cérébrale, même pour célébrer un objet, un paysage, un corps. Certains de ses titres semblent des provocations: Introduction à la philosophie, De l'épistémologie, Discours de la méthode, Phénoménologie, etc. Mais le poète ne "traite" pas des sujets philosophiques, il dessine, en vers, les blasons des divers modes de connaissance. Exprimant des idées abstraites à l'aide de métaphores, d'allégories et de toutes sortes de procédés rhétoriques, il énnonce la dialectique de la présence et de l'absence d'être. Et cette poésie plus prophétique que didactique n'est pas exempte d'une émotion mystique: elle chante la condition de l'homme vivant "dans la mémoire de Dieu». Ver-te dourava o corpo da pupila. A sombra. E as estátuas por onde ver-te vinha animal. E parava redondo na retina. * O grande movimento era-nos sempre margem de olhar um rio. Ia-se-nos perdendo ver algum navio entrar nas águas de tê-lo alguma vez ouvido. Ou, se quiserem, havia o movimento. E, à volta dele, o rio estava perto de sermos lugar. Ponto de frio de onde os amantes sempre partiram esquecidos. Sobre as Horas Iluminar-se a análise por trás de cada ponto da pupila desembacia a base de ver. E ver culmina na ordem luminosa por onde as mãos se fazem inteligência que desliza e arde quase no material que surge análise da ciência divina. * Benzo-me em nome da melancolia, ciência teológica que funda sermos a história reflectida de não haver nenhuma, senão a de um espelho que ilumina os pensamentos da sua face pura e onde sermos pensados nos inclina a ver história onde só há leitura do esquecimento e da melancolia, ciêncas da lógica absoluta. A Base e o Timbre A velhice é um vento que nos toma no seu halo feliz de ensombramento. E em nós depõe do que se deu à obra somente o modo de não sentir o tempo, senão no ritmo interior de a sombra passar à transparência do momento. Mas um momento de que baniram horas o hábito e o jeito de estar vendo para muito mais longe. Para de onde a obra surde. E a velhice nos ilumina o vento. I À noite, os animais que tinham ido beber o brilho que lhe vem da noite, paravam a cheirar. E a ouvir o ruído crescer do sítio de onde corria a fonte. À noite os animais eram antigos. E, à volta deles, tudo o mais que fosse assentava na sombra. E estendia um sítio onde o tempo crescia para longe. II A luz dos animais sobe da negra solidão que os estrutura. E os constrange à tristeza dessa escuridão primordial que os funda. A luz dos animais sobe. Segrega o conciso halo de enxúndia com que a lavração da gleba percorre os membros da corpulência nua. E a luz dos animais pára. Os assenta dentro da exterioridade pura de os vermos sós. Na certeza do peso ruminante da estatura. Figuras Vai distraído. O ângulo mensura o ritmo de desfasamento de que surge a deriva crepuscular do espaço quando é mais tensa a altura do silêncio. Vai distraído. Vai iluminado pela crueza de lugar que o vento enreda a seus pés, deixando toda a espessura do sono ao movimento. Vai distraído. E a distracção é um santo país de conhecimento. * O sopro dos retratos cada instante à substância de havê-los se ilumina. Que surdem todos dessa antiguidade que vem acima varrer vestígios de irmos de passagem onde se oculta a ondeação de enigma. O sopro dos retratos é quase luz. Ou quase penumbra de tez. Em vias de modular a ebúrnea claridade de forma a subsistir a nostalgia de estarmos indo para a antiguidade que o sopro dos retratos traz acima. Figuras IN MEMORIAM a meu pai Cada dia te víamos andando mais para dentro de ti mesmo. O tempo ia ficando parado à medida que o sangue, mais pequeno, circulava num espaço que já era seu próprio esquecimento. A certa altura, a placidez do campo lavrava teu rosto. Que terreno era então ver-te olhando, como se olhar e o fio do centeio fossem a luz do ano com nostalgia de parecer eterno. Foi essa a idade em que haver sido amado pelo pão, pelo vinho e pelo vento te trouxe a crestação com que o trabalho deu tez ao sonho, e honradez e peso a ficares assim, em paz sentado, marceneirando teu próprio pensamento. E, aos poucos, por ele madrugando, seguiste ainda mais por ele adentro, de forma que, hoje, nem te vemos. O halo onde foste minguando é só aceno de quem se foi pensando até ao outro lado de si mesmo. Do outro lado de si mesmos, cantam. Desde outra margem sua voz arriba, imperceptivelmente alcandorada nessa tensão em que o cristal é cima. Como essa margem se está excedendo. Que alta se cumpre a melodia por onde a inteligência fundou haver montanhas de que nos chega somente a nostalgia. Que as vozes que, do outro lado de si mesmas, cantam deixam os ecos propagar-se à santa alcandoração da disciplina. Sobre os Mortos INTERIOR Os espelhos estudam pelo inverno o brilho do seu timbre envelhecido. Auscultam nimbos últimos. No intento de sugerirem cantos, quando os vidros ângulos abrem fundos ao silêncio e o crescimento dum lugar antigo. A luz, depois, recolhe-se ao momento de estar ensimesmando os tempos idos. Que, frágeis, fulgem, quase nem reflexos de um mundo sonolento de vestígios. Depois ainda, a superfície um vento esculpe. Efígies e apagados signos adormecem em paz. Enquanto o espelho atento guarda a escuridão do sítio. VÉNUS Subleva-se no verbo uma brancura onde sucumbem subtis trampolins de alvaiade com que a espuma se exalta na penumbra e nos quadris. E impugna o púbis. O assusta quase no aperto da sua tumidez batida pelo mar feliz da frase que se ergue do triunfo do que fez com Vénus firme a resistir ao meio da onda aonde se debate a trança. E de onde o desafio do seu seio emerge, enquanto o justo ritmo avança na só brancura duma espuma escrita que ambas instrui e que uma só visita. ULTIMA CANÇÃO Uma alegria a atravessar a pena. Enquanto a pena se desembacia e a sua luz deixa a negrura, que era tão invisível. Mas transparecia. Uma alegria que pesa. Sobe, difícil, pela paz. E brilha a despedir-se do amor da orquestra indo a um silêncio que quase ainda trila. Depois, quando a alegria cessa de estar sujeita ao peso da atmosfera, sobe ainda. E deixa a base do silêncio aberta para a pena impregnar sua alegria. Uso de Penumbra |
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