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O Sr. Eduardo Vidal um poeta lírico e quase singular em duas qualidades excelentes, nesta época de galicismos e de castração do amor ama, primeira qualidade; segunda, e mais rara: faz correctíssimas líricas do seu amor. Não lhe sei a idade. As suas poesias rescendem vinte primaveras. Quando eu era moço, cheirava-as com certa inveja e com tal qual ciúme. Agora, quando o leio e nunca deixo de o reler , sinto pruir-me a saudade do anjo que a mim me fugiu, e a ele lhe grudou nas espáduas as nitentes asas.
Os talentos recém-vindos bem forcejam por desasá-lo. Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, ambos engenhos de prime saut, simbolizaram-no no romantismo, e não cessam de o morder em holocausto à Ideia Nova. Mas o Sr. Vidal refuta-os deste teor:
A ideia nova, é boa!... em que consiste a ideia?...
Nova; mas nova em quê?... Na insânia que alardeia,
Na forma sem primor, no rasgo desonesto,
Na feia exposição, na chufa, no doesto,
No delírio falaz que pinta a humanidade
Em latíbulos vis de infame ebriedade,
Bebendo a corrupção nas taças sacrossantas?...
Ideia nova, em quê?... Se a perversão nos cantas,
Sagrando a lira d’ouro às saturnais lascivas;
Se no teu ideal só pairam essas divas
Que a miséria lançou nos antros enlodados,
Que novidade és tu? Que mundos ignorados
Pretendes cimentar repletos d’abundância?
O que farás do amor o que farás da infância?...
O que dirás às mães num límpido conselho?...
Onde tens o respeito às cãs do pobre velho
Que é pai, que é bom, que é triste, e em Deus inda confia?...
És noite e escuridão; negas a luz e o dia,
Es o velho farsante, a deusa descambada.
Não ascendes ao belo; andas de escada em escada
A farejar o crime, e a delatar o vício.
Que sacerdócio é o teu? Serves o baixo oficio
Do polícia que espreita, e agarra o que mal usa:
Votaste a Boa Hora em templo à tua musa.
Eu, que persisto há muito em crer no bem florente,
Que sou da reacção protervo impenitente,
Que adoro o Céu, a flor, a pálida beleza,
Os lírios da inocência, a vasta natureza,
E que sinto em minha alma uns estos de lirismo
Quando me agita, ó Deus, um vago pantelsmo
Que me afaga, me enleva, e brando me sorri,
Mas que, em íntimo ardor, me leva a crer em ti;
Eu deixo caminhar a procissão judenga,
E adormeço de ouvir-lhe a chocha lengalenga!
Estes alexandrinos são tersos, formosos e irrespondíveis. Quando, ao diante, eu historiar esta invasão de Gôngoras entranhados em ideias novas de remendos velhos, colhidos a gancho nos monturos de Paris, os versos do Sr. Vidal serão citados como o protesto de um Daniel na cova dos leões.
Camilo Castelo Branco
A RAPOSA E AS UVAS
Dizem que as musas castas doutras eras
Devem meter-se agora a petroleiras
E esfolharem-se as vívidas roseiras,
Enfeite das caducas Primaveras;
Que o tempo das visões e das quimeras
Desfaz-se à luz das coisas verdadeiras,
Que é néscio o amor, que as aves são palreiras,
E que ninguém se importa coas esferas.
Eu ouço dizer isto em rima vária,
E enfim que é bom pôr termo a tantas petas,
Que a ideia nova é nova... e proletária.
Ó Herodes cruéis das borboletas!
Quem vos dera a varanda solitária
Onde cismam as pálidas Julietas!
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