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ERA UMA VEZ O TEMPO – DIÁRIO IV

(extractos)

Galera

12 de Junho

Tenho comigo todos os pertences para escrever, e mais o silêncio feito de cedros, de brisa nos gerânios, de nuvens serenas lá da serra. Tenho ainda este conto começado que eu chamei de Elegia a Sul de Capricórnio. Vou na parte em que Maria da Paz gostaria tanto de contar como fora o seu dia. Das pessoas com quem tinha falado. Das montras com coisas bonitas que um dia tencionava comprar. Do cheiro a mar e a especiaria. Mas, sempre que lhe dava vontade de dizer, só encontrava do outro lado a imensa distância, um Januário desenraizado na Baía de Todos os Santos, incapaz de inventar um futuro. Fazendo como os bichos do mato no seu covil: eriçando-se todo. Por isso não lhe podiam chegar nem os acordes do violão do morro, nem o canto dos pescadores da beira-dīágua.

E, quando eu ia a escrever que ela não queria ser, como Januário, a aldeia parada, o limite, o lastro, eis que me distraio a olhar pela janela aberta a obra do Bom Deus. O empenho que pôs em as coisas serem tão diversas no corpo e na alma. O partido que tirou das cores. A invenção genial da luz nos caniçais, delicada como uma penugem. Depois, o milagre daquele metrosídero a desafiar-me o espanto. Erecto como um pescoço de girafa, nasce do muro do mirante, e eu pasmo da ousadia da árvore e assusto-me do futuro dela. O que será do mirante e da casa quando o tronco e as raízes engrossarem e tomarem conta de tudo ? Tenho escrúpulos em decepar aquele projecto de vida com dois golpes de catana, mas receio pela minha própria segurança. Quem não é da Ilha não sabe o que é um metrosídero e, portanto, não faz ideia do perigo que corro.

Um metrosídero é uma coisa viva que não se parece com mais nada, uma árvore assim como um imenso bosque de folhagem compacta, aveludada, pintada como as árvores de Fragonard. Cresce com a lentidão das coisas sem tempo, mas sente-se, por dentro dele, uma contida fogosidade apaixonada – uma determinação férrea de dominar, de conquistar o universo, demonstrada no modo como estende as raízes tenazes, contorcidas, ao jeito de garras reforçadas por outras que nascem dos troncos altos e mergulham na terra, e engrossam como colunas de pedra. E, entretanto, não cessa de crescer, de engrossar em direcção ao sol, possesso de luz. Se se tentar atirar-lhe um golpe de machado, o ferro embota sem se afundar, e o cabo fica em estilhas nas mãos. Assim se é empolgado pelo sentimento da permanência, da energia concentrada. Da força que tudo pode e ameaça aniquilar o mundo. Coberto de púrpura na época própria, tem a imponência de um cardeal, a majestade de um rei coroado e ungido – e a Ilha torna-se mesquinha para lhe servir de trono.

Depois disto, talvez entendam as razões dos meus receios e os motivos porque não tenho rasgo para continuar, por agora, o meu conto começado.

Nova York

A cidade está de pé não se sabe muito bem como – talvez por ter os topos de aço e vidro fincados nas nuvens. Talvez por enraizar na terra até à fundura do magma.

Seja como for, este milagre inexplicável da cidade de pé, a furar as nuvens.

O olhar deslumbra-se. Espanta-se. O entendimento flutua no assombro e na perplexidade do perguntar. No risco do supor lá onde o espanto germina.

Nova York no céu da tarde, quase abstracta. Quase surrealista – a pairar num retalho de céu roxo e verde de estrelas derramadas até ao chão. O presente já não se reconhece: está ali o futuro. – um futuro que é daqui a mil anos. Um futuro todo de robótica, de vidro e aço que terão outros nomes. De vibrações cósmicas ainda por descobrir.

Sentida como a radical incapacidade de ser identificada por palavras, a cidade é da raça do Grande Canyon, posta ali para se acreditar que há um deus chamado Homem.

Ajuste de contas que os primeiros migrantes juraram ter com o destino, Nova York é a dos contrastes chamados Bronx e Broadway. Superabundância e desespero. Tragédia. Esperança. Todas profundamente sentidas pela cidade como se o seu peito se estivesse rasgando.

E, todavia, as árvores e as flores, as crianças e os velhos, com aparência das árvores e das flores conhecidas. Das crianças e dos velhos conhecidos, com gestos, andar de gente e tudo. Com voz de gente que se pode ler nas enciclopédias e em todos os livros já escritos, e identificar nos perfis pintados e esculpidos há mais de dez mil anos. Tudo isto naquele mundo suspenso do céu, ofuscante de estrelas acendidas no adiantado da tarde. Tudo isto ali, na cidade fantástica da ousadia levada ao extremo limite do ousar. Catalogada nos livros da gente aprender como a única sem comparação.

À vista desarmada, Nova York no mapa – um nome escrito como outros nomes, com tinta, a indicar onde fica. Um ponto igual a outros pontos, redondo e legendado. Composto de duas pequeninas palavras, porém imensamente mágicas.

P. Delgada

5. Janeiro

Estive a passar os contos ao computador, o que significa uma poda sistemática, milimétrica, na seara de palavras: colhendo a junça e deitando-a ao fogo; consolidando as sebes, filtrando a luz, por ventura excessiva, para que um certo mistério subsista. Tudo isto no mais completo isolamento. Escrever é estar isolado. Isolado num certo lugar, condicionado pela presença de certa espécie de árvores capazes de serem habitat de pássaros portadores de voz. É muito importante a selecção dos ruídos no lugar onde se escreve para que a escrita se produza com a limpidez possível. Ainda agora, ao entrar o portão que dá para o jardim, percebi logo a presença do silêncio: estava tudo juncado de folhas amarelas e castanhas, e o gatinho, ainda pequeno, veio logo ter comigo e fitou-me com os seus olhos tão azuis. Vi logo que estava ansioso por companhia, o que significava abandono. Porém, abandono e isolamento não são da mesma natureza. O abandono diz mais respeito às coisas. O isolamento é um sentimento de gente. Também conhecido por solidão, não é característica específica dos lugares mas produto da nossa presença humana. Do nosso sentir. No casulo da casa eu, como escritor, sou um homem voluntariamente solitário, na atitude do medium que espera a visita dos espíritos.. Chego, visto a jaleca de flanela coçada. Sento-me na cadeira de palhinha já moldada à minha anatomia. Ponho a modos a folha A 4, a esferográfica preta (nada me sai a azul ou a vermelho – o que não quer dizer que somente tenha sonhos a branco e preto). Posto isto, meto entre parêntesis o mundo de onde venho, fecho tudo a cadeado, e mergulho num mar de estranhas criaturas, algumas delas desaparafusadas, mesmo cruéis. Tantas vezes absurdas. Outras, diáfanas como almas. Quase sem corpo material. Fantasmas de fomes insatisfeitas e desejos inconfessáveis. Na verdade, sou prisioneiro voluntário neste quarto com vistas para os plátanos e para o tanque da Rotunda a esguichar todo o dia uma água de duvidosa limpidez.

Digo prisioneiro voluntário, mas parece-me que não digo bem. Não tenho a certeza de ser voluntário pois, com o tempo, a escrita toma conta de nós. Subjuga-nos. Tiraniza-nos – e o que de começo parecia um passatempo inocente e caprichoso, passa a ser um destino inevitável, com os desesperos, as alegrias, as frustrações de todos os destinos.

Acabo de pôr em dúvida a voluntariedade do acto de escrever, como se vê, e agora também duvido do isolamento do escritor. Decerto este isolamento existe, mas como condição para uma outra forma de companhia. Com efeito, o escritor não está só. Está acompanhado pelos seres que cria, que vai criando. Seres fantásticos e tambem "reais". Criaturas por vezes fascinantes, impregnadas de desígnios secretos. Ou então, homúnculos deformados, ignóbeis, contaminados das lepras de todas as idades do mundo. As mais das vezes, na verdade, nem diabos nem anjos que os homens não são, por dentro, nem pretos nem brancos, mas cinzentos.

Dizia que o escritor não está propriamente só, e isto é tão verdade que, quando chega alguém e interrompe o acto da criação, ele tem todo o ar assarapantado de quem regressa de um outro mundo distante, cheio de gente com quem discutia as coisas problemáticas da vida.

A solidão do escritor começa, realmente a sério, quando o livro chega ao fim. Então, sim, fica perdido de sozinho: as criaturas, os lugares, os sentimentos, os conflitos, tudo cada vez mais distanciado, a sumir-se no espaço – e então é a solidão absoluta e a sem razão de viver capaz de pôr fim à vida. Há, pois, que inventar um pretexto de adiar a sentença, começar um novo livro, sem o que chegará breve a morte anunciada.

Porém, recomeçar um novo livro quer dizer um longo solilóquio todo feito de perplexidades, de perguntas sem resposta certa: tenho ainda alguma coisa para dizer? Como vou dizer? Que outro vocabulário? Que outra sintaxe? Acontecerá a Arte?

Quem recomeça paira sobre o ignorado, como o espírito das águas sobre o caos primitivo. É necessário ter fé, acreditar com muita força que se trás o desconhecido connosco, no mais fundo de nós, como uma nascente inesgotável. Acreditar que é com o escrever que se alcança o que se esconde no mais obscuro da consciência e não pode ser alcançado de outro modo. Por isso se escreve. Com teima. Com desespero. Na dúvida permanente do não sabermos como e para onde. Vamos às cegas, sem destino. Com risco de vida. Nada conhecemos das curvas do caminho. Nem dos abismos. Nem do que se esconde para lá das colinas. Vamos por desertos e montanhas, por brenhas tão cerradas, à procura do indecifrável. E o caminho vai-se desenrolando misteriosamente, penosamente, como a própria vida, e no fim, é ainda como a vida: cinza, pó e NADA.

Ponta Delgada

9 de Maio

Cá dentro, uma coisa pesada e escura.

Está um sol lindo, a serra toda clara e cheirosa, de redondezas e fofuras onde são precisas, e eu com uma coisa escura cá dentro que já não sei se vem do hábito, se do apodrecimento da faculdade da alegria. Uma coisa escura com a persistência das rochas. Inútil respirar fundo, pensar que é assim mesmo. Estar vivo é também ter sombras cá dentro, vontade de coisa nenhuma. Ser ausência como se já não fôssemos. O pior é quando isto se vai tornando como o estado sólido dos corpos, a resistir à pressão dos dedos e às razões da Razão.

E isto tem-se ido tornando como o estado sólido dos corpos, resistente, mutilador como uma faca de capar.

*

Ponta Delgada

17 de Maio

Estive a olhar muito tempo a cabeça do Cristo que Artur Bual me ofereceu de sua autoria. Momento inesquecível de emoção e espanto. Que mistério comanda os dedos, o cérebro e os sentimentos do Artista em certos momentos? Que espécie de energia irradiava daquele pedaço informe de carvão quando Bual tornou possível aquele Rosto três vezes santo? Quanta tragédia, quanta bondade – a infinita piedade silenciosa e, todavia, tão nítida e densa, capaz de me comover assim como estou.

Ah, aquele Olhar!!

Ponta Delgada

18 de Maio

Com os filhos, relembro sabores da minha infância, o cheiro da galinha assada no forno de lenha. Os peros malápio-rosa da quinta do Paúl. O ar que se respirava no começo da manhã e quando a tarde findava.

Onde isso já vai! Agora é o ar, a água, o chão, tudo conspurcado da ganância. Socorro! A civilização está doente! As pessoas agridem-se, matam-se. Acudam que a cidade enlouqueceu. Que vai ser de nossas almas prometidas à fraternidade ? Que é das promessas de paz e de igualdade? Amaldiçoados os vendilhões do templo. Os que têm as mãos sujas do sangue dos inocentes. Os que queimaram o trigo da esperança. Amaldiçoados os fazedores de guerras, vampiros da noite que têm um ninho de víboras no lugar do coração.

Que é do Deus vingador do Antigo Testamento ? Que é da espada de fogo? Será que Deus envelheceu e dormita?

Sob o inteiro silêncio da Eternidade, Deus dormita.

*

Ponta Delgada

23 de Maio

Esteve cá o Bruno da Ponte, editor. No regresso, levou o livrinho de Contos (baptizado de Memórias da Cidade Cercada). Dias depois, soube que já os tinha lido e gostado. Oxalá não se tivesse enganado e os ditos cujos mereçam a nota positiva que também outros amigos, generosamente, lhes atribuíram. Oxalá tenham nas sílabas a vibração de vida que lhes soprei e não sei (nem saberei nunca) até que ponto resultou em rios verdadeiros, com sargaços, peixes, e tudo o mais que faz os rios serem verdadeiros.

Ponta Delgada

24 Maio

No fim, volto a ficar sozinho como se durante toda a viagem não tivesse havido encontros.. Amigos ausentam-se, outros morrem. Os filhos têm a sua vida própria, os seus interesses, os filhos deles.

Depois, é da natureza das pessoas serem falhas da memória. Tudo se esquece depressa – até o sofrimento. A existência seria insuportável com a carga toda a pesar-nos nos braços e no peito. A pesar-nos na alma. Assim, é bom o esquecimento.

Porém, vendo melhor, não estou sozinho: tenho os livros, recordações do que não quis esquecer – um som de sinos guardando na corola de bronze fragmentos de tardes e o perfume dos incensos queimados aos santos. Apesar de tudo, ainda uns restos de esperança, indefinidamente ressoante nas pedras das minhas catedrais tombadas.

Ponta Delgada

25 Maio

Comecei o dia com o sentimento de casa deserta, um buraco negro no sítio até agora habitado por toda aquela gente dos Contos que o editor levou consigo para Lisboa.

Aquele Homem Que Se Perdeu No Mar e não disse nada a ninguém quando desamarrou o barco e partiu. O livrinho abre com ele e era outono, pois o vento arrastava as folhas para longe. Triunfou este homem mesmo dos que se compraziam em apagar os perfis iluminados do sonho, pois era dos que acreditavam que bastava Deus querer para tirar das pedrasuma seara madura.

Ivo Cabreira (ou "cabrejante", como muito bem viu um escritor amigo), que será feito dele ? Era este Ivo um homem do sul, a voz limitada ao essencial das palavras e quase sem gesticulações. O olhar divagante de quem projecta dar o salto para além das muralhas em que a cidade se cercava. Por isto e pela sua qualidade "cabrejante", imagino-o a sofrer horrores, prisioneiro que deve estar, juntamente com os outros ausentes, numa gaveta cheia de papéis agrafados e datados por ordem de chegada. Lembro a sua humilhação naquele dia em que se pôs a dizer pelos caminhos a sua qualidade de sombra. Riram-lhe na cara. Riram com grandes esgares, as veias inchadas de tanto rir. Chamaram-no doido – e ele parado, os cabelos em desalinho como é atributo dos doidos. A sua sombra inverosímil fazendo um grande escândalo na rua. Tinha-me habituado à sua presença. Afeiçoara-me mesmo à sua figura conspurcada pelos desrespeitos humanos.

Faz-me falta a vizinha Amélia, vítima dos desmandos do marido. Penhorada. O sótão da nossa casa na semi-obscuridade de inverno, suficiente, no entanto, para permitir orientar-me nos caminhos de Simbad, o marinheiro, e poder demarcar-me da cidade concreta, morna e estúpida, cheia de sórdidas esquinas. Um som de flautas vindo de algures que não era daquela cidade.

Pena, ainda, daquele Armando, outra vez longe da Ilha, melancólico por herança de sua mãe, senhora dada a quebrantos e à leitura desmedida da Dama Das Camélias. Recordo o seu olhar velado, o caminhar solitário de quem anda atento às mensagens do vento.

Quanto ao Papandeira e a ti Eugénio Gata – gente simples, mesmo silvestre, habituada ao mar – receio não resistam à poluição e ao vírus da imunodeficiência adquirida, tão comuns nas grandes capitais.

Mais gente fica por dizer, porém, já basta de evocação de ausentes e da surdez em que ficou a casa depois que partiram.

Ponta Delgada

13 de Junho

Lá vou indo no ir lento dos dias, entre dois núcleos de baixas pressões – um ao norte, outro ao sul do arquipélago – como ouvi no boletim meteorológico. Dias que só quem conhece é que sabe como são arrastados e incompletos. Vala-comum de futuros incertos, parados no centro da vida. Perplexos. Silenciosos de um silêncio definitivo – e a gente na maior indiferença, a olhar-se ao espelho para se ver morrer.

*

Nas estantes, montes de livros a anoitecerem de inúteis. Cegos tacteando às cegas, sem nenhuma verdadeira resposta para dar. Sinto-lhes o peso no peito, o ardor nos olhos das leituras difíceis. Milhares e milhares de folhas impressas e numeradas, encadernadas a cores e com dizeres na capa. Tantas vezes repetitivos e sibilinos. Pomo-nos a esperar em todos os lugares de espera, e, vai-se a ver, acaba-se por regressar de mãos e coração vazios. Por isso, inventamos Deus sob a ideia de um imenso vaso sagrado, precioso e hermético, símbolo das infinitas perguntas por responder. Guardião dos segredos invioláveis. Salvação e sentido final para um mundo sem salvação e sem sentido.

Entretanto espera-se. Vai-se esperando e esperando.

Espera-se o quê?

*

P. Delgada

19. Junho

Cheguei estafado a casa depois de um longo passeio a pé pela cidade. Os meus limites, claro, cada vez mais limitados. Este fôlego, estes ossos, já não têm vinte anos. Já não posso pensar como pensava há quatro dezenas de anos, uma vida sem limites. Decerto não dizia isto por estas palavras textuais, mas parece-me que as sentia na boca embora não as pronunciasse. Então, o ardor da vida em mim era uma coisa acesa no centro da alegria. Meu Deus, e ainda é – apesar das sementes que não deram fruto, das safras iníquas, das cinzas, das mãos marcadas dos holocaustos. Mas é bom chegar aonde cheguei sem ter conhecido o abandono das ruas de Bombaim, nem os ódios que duram, gostando de ver crescer as faias e as coisas gratuitas e, por vezes, admiráveis, da inspiração dos poetas.

Galera,

21 de Junho

Pelo calendário, é o primeiro dia de verão. No belo mundo que vejo, abriram-se hoje as torneiras da luz. Árvores, sol, o florir-se dos cravos, as distâncias do mar, os cumes da serra. Além a casa da americana, ainda fechada, meio escondida na sombra dos sicómoros. Piteiras, ameaçam os piratas de foice afiada. Não ouves? Escuta. São os pássaros entontecidos de luz a quebrarem o silêncio dos dias soturnos. Cantam. Embebedam-se de música. Fazem eco na serra. Fecho os olhos. Respiro fundo. Concentro-me no cheiro mais acendido dos pinheiros, na vibração quase erótica do ar na minha cara. Passa no meu sangue com um frémito de intimidades carnais, e eu abro os olhos a ver se se trata dos teus cabelos ao alcance da minha mão. Apetece cantar o canto vagabundo dos trovadores dos caminhos. Dançar a dança vagabunda dos saltimbancos – sabendo, embora, que tudo é tão desconcertantemente gratuito, tão maravilhosamente inútil.

E, apesar dos sons de infância, do findar dos dias e das noites com rendilhados deslumbrantes a ocidente e a oriente, tantas vezes sentimos desejos de abalar. Porém, no nosso caso particular, não é nada fácil deixar este rochedo. Teremos de levar connosco todo um pequenino-vasto espaço de uma certa luz, do céu rente à terra, da safra de ventos que chegam das distâncias do mar – senão começamos a definhar e a esvairmo-nos do sangue de muitas feridas. Então, se queremos salvar a vida, teremos de voltar.

Ponta Delgada

3 de Julho

Ponta Delgada tem-se tornado uma cidade branca, como um corpo de mulher estendido na praia da baía que fecha o porto. Está longe de possuir um talhe de impecável esbelteza, mas há muito pior. Apesar dos seus quatrocentos e tantos anos, pôs-se a rejuvenescer nestes últimos tempos, empenhada em ser moderna. Assim, tem feito por adelgaçar a cintura e cumprir as regras de higiene e de elegância ( nem sempre com êxito total), mostrando-se mesmo, de flores nos cabelos e um olhar de promessas, toda convencida de que os visitantes lhe dão muito menos idade do que realmente tem. Burgo ilhéu distanciado dos grandes centros onde se cria civilização, mesmo assim existe na planície do mar como o oásis no deserto, onde os navios vêm para se dessedentarem das longas travessias. Os adventícios, provavelmente, não chegam a dar pelos seus fantasmas rondando a horas mortas pelas vielas centenárias. Só os nativos os conhecem e lhes sabem os nomes. Como também sabem o quanto são esses fantasmas perturbados pelos ruídos das mecânicas modernas. Pelos gritos insanos das músicas electrónicas tangidas pelos dedos de sujeitos de brinco na orelha, anéis de latão nos dedos e chapéus grotescos por cima de cabeças semi-rapadas. As muralhas do castelo, os conventos, as torres das igrejas, certas fachadas de solares e de capelas, restos de ruínas, continuam a sobreviver ao mundo silencioso de outrora. A nossa imaginação é curta demais. Temos a impressão que o tempo nasceu connosco, e assim cristalizamos na ilusão de que o que vemos está aí como se sempre tivesse estado – pois não somos da época em que as serpentes de fogo desceram do céu, e as torrentes abalaram a terra. Ao cheiro da morte só restava então o recurso de bater com o punho nos peitos, arrastar os joelhos no chão e cobrir a cabeça de cinzas. E, apesar de tudo, essas gentes nunca se lembraram de renegar o lugar dos deuses assustadores e amaldiçoar a montanha de onde vinha o fogo. E sempre falaram da sua terra com o bem-querer de Ilha em Boa-Hora-Aparecida.

*

P. Delgada

7 de Julho

Daqueles dias de plangências e diónisos emudecidos – a sensação de morte suspensa, de perguntas sem esperança. Memórias de Cidade Cercada, perdida a identidade de cidade e o significado de cercada, para só ficar "o pranto pelo dia de hoje".

*

Deus deu-lhe o nome de Homem quando o viu com aquelas disposições de se tornar fraternal e possuidor do dom da palavra razoável. E havia na face do Senhor Deus assim como que uma claridade de mais secreta alegria – um pouco semelhante àquela que o tinha acompanhado durante os seis dias em que foi separando a luz das trevas, e trazendo à vida os peixes, os répteis, as aves, e tudo o mais infinitamente grande e pequeno que tem o selo do Seu Nome. Então, convencido da bondade da Sua obra, o Senhor recolheu-se mais cedo para a sesta, e ia confiante e feliz como nunca acontecera nos últimos cem biliões de séculos, isto é, até ao momento solene em que tomara, finalmente, a decisão de vir a exercer o ofício de criador do Céu e da Terra e de todos os lugares. Recolhendo-se, pois, apagou de um sopro, duas ou três estrelas mais próximas, de modo a alargar o espaço de penumbra propícia ao repousar, compôs as barbas debaixo do queixo. Recomendou silêncio aos querubins e serafins, os mais dados a brincadeiras e risos fáceis. E tão seguro se sentia da Sua obra que dispensou até o Arcanjo de serviço naquele sétimo dia. Depois, caiu numa dormência consolada, como que esquecido do mundo que criara – e assim ficou a dormitar sob o inteiro silêncio da Eternidade.

*

Ponta Delgada

7 de Novembro

Comentam o meu isolamento, o espaço opressivo a que me remeto e se reflecte, obviamente, no que escrevo. Sou uma ilhota dentro da Ilha, eu sei. Vivo desencantado, quase em estado de choque. O espectáculo do mundo! Tal desgraça! As nações aperfeiçoaram as máquinas. Enriqueceram. E, todavia, os homens vivem na maior penúria. Confusos e infelizes. Enfermos. O coração fechado. Já não há lugar para a alegria. Proibido ser feliz. Proibido ter um gesto público de bondade. Proibido ser gente, ter escrúpulos. Ser gente. Gritam: Os dinossáurios estão nos museus!

As pessoas compram armas, trancam-se por dentro. Usam portas blindadas. Grades nas janelas. Arame farpado nos jardins. É necessário ter cautela. Em pleno dia já não é seguro utilizar o repouso do banco de jardim público. Estar no meio da multidão. Há sempre o receio de um spray paralizante, de uma seringa infectada. Uma bomba escondida num vaso de gerânios. Andar no metropolitano, pode ser fatal. Sair todas as manhãs a pé ou de carro, pode ser fatal. Fazer amor, pode ser fatal. Agora, nunca se sabe se há regresso. Se se torna a ver os filhos. Cuidado! Os bárbaros estão dentro da cidade. Habitam connosco, na casa pegada. Já estão mesmo dentro da nossa casa através dos canais da TV. Através de outras vias subreptícias...

Ponta Delgada

23 de Novembro

Publicitação do meu livrinho de contos "Memórias da Cidade Cercada", na livraria Sol-Mar. Vamberto e Urbano Bettencourt no papel de agentes catalizadores de uma charla informal, assim informal a meu pedido expresso. Chegámos. Chegaram as pessoas. Sentámo-nos à mesa e, ali, sem papéis e sem discursos, improvisámos a três mãos em desprendido discorrer sobre o livrinho presente – na convicção de que as coisas da arte e do espírito têm de ser assim, simples e espontâneas como o brotar das fontes.

Ponta Delgada

25 de Novembro

Estive a ler Gorki. Conheceu a dura infância dos pobres, a intimidade de um avô que nunca o tratou como criança. Como somos capazes de resistir ao infortúnio!

E todavia é preciso passar pelo fio da navalha para falar, como deve ser, das coisas grandes e fortes. É indispensável. Senão escreve-se voluvelmente, sem intimidade com o íntimo das coisas. Escreve-se como um turista que se põe a atravessar apressadamente a paisagem só com a intenção de coleccionar fotografias para mostrar ao serão às visitas. A literatura não é coisa de se trazer em álbuns para se mostrar às visitas. Ela é uma coisa séria: a própria " respiração da substância humana" (no dizer de Eduardo Lourenço) – e com isso não se brinca.

Ponta Delgada

30 de Novembro

Com a idade, acrescentam-se-me depressões e fragilidades que trago da juventude. Os humores alteram-se-me bem como se acentua o desapego à vida. Que é dos entusiasmos ? Da confiança no meu corpo ? Sinto-me, por vezes, frágil, frágil, no fundo ainda acreditando que exagero, que é auto-sugestão provinda da autoscopia – aquele vício de ir registando tudo de mim com minúcias de quanto o bater do coração e dos pulsos, de quanto a limpidez da respiração. Herdei de minha mãe o temperamento nervoso, insónias e alarmes – sismógrafo apurado que sou dos estremecimentos dos dias. Medida do secreto e do divino de que se compõe o mundo. "Sal da vida", como dizia Marcel Proust, conseguido à custa "de choros, de risos espasmódicos, de urticárias, de epilepsias, de uma angústia de morrer que é pior que tudo isso" ( "À la recherche du temps perdu ").

Então prolongo o meu horário de estar em casa, no refúgio das minhas quatro paredes sozinhas, o meu tecto a defender-me das chuvas ácidas e do mais que pode vir do céu conspurcado pelos homens.

Está visto que a idade acentua virtudes e defeitos. Das virtudes, pois que digam os outros. Dos defeitos sei eu de sobejo. Sempre fui irregular, pouco disciplinado, alheio às coisas e loisas às quais a maioria das pessoas presta atenção – e já nem sei se estou falando de virtudes ou de defeitos. Só sei que ouço, verdadeiramente, o que me interessa ouvir, geralmente aparentando prestar atenção ao que me dizem, mas apenas por cortesia, para no fim só reter o que me interessa. Se não me interessa, nem chego a ouvir. Fica a coisa no meu ouvido como a zoada de um vento que passa, eu embarcado por terras e mares alongados. Ensimesmado até ao ponto de, com frequência, me dizerem: Outro dia passei por ti na rua, desejei-te bom dia em voz alta, e tu, moita carrasco! A pensar na morte da bezerra...

A pensar, decerto, porque não há suspensão de pensamento. A pensar no que era e no que poderia ter sido a vida se. A consciência tão constante da cidade cercada que sou eu dentro das minhas próprias muralhas. Coisas assim... E, todavia, amando a minha terra até doer no peito – esta luz de outono assim vinda de um luar mais que do Sol, de tal maneira se mostra aveludada nas crinas da Serra.

Porém, se eu disser que é perfeitamente verdade amar e odiar ao mesmo tempo, ninguém acredita. Toda a gente me vai apontar a dedo, dizer que tenho vários parafusos desaparafusados...

Ponta Delgada

3 de Dezembro

Toda a noite a catarreira a abrir-me o peito – o sentimento da fragilidade do meu corpo na utopia que é querermos achar sozinhos o mundo, criar mares onde é certo não haver mais que pântanos. E, mesmo assim, prosseguimos a arranhar o peito e a chorar baba e ranho, sabendo, muito embora, que chegar nunca se chega.

Sozinho em casa, ouvindo-me como se me faltasse o ar e me fugisse a vida. A tosse rascante, dolorosa. A cabeça a estalar. A noite oculta no peito. Vivo, mas percebendo muito exactamente até onde a vida. Onde os anos, os dias, cuidando que era para sempre ? O som de flautas que vinha do mar e do vento ? O manjericão na sombra do arvoredo ? O cheiro da terra depois da chuva ? Tudo isto ainda comigo e, todavia, como se nunca tivesse sido, de tão distante. As horas num ir lento, cada vez mais últimas.

E Deus ? Brinca de se esconder ? Talvez o venha a encontrar um destes dias entre as moitas de cidreira e hortelã, lá para os fundos do meu quintal. Talvez um destes dias...

Ponta Delgada

8 de Dezembro

De a gente se benzer as vezes que dizemos amanhã, quando seria de dizer hoje, agora.

AGORA! – assim, abrindo muito a boca. Os punhos cerrados. A decisão nos olhos, no corpo inteiro. Um dia hás-de ver como é tarde, demasiado tarde para o amor, para o gosto de fazer gosto a alguém. Para a criação da vida – o agora sempre adiado para um amanhã sem data. A cegueira no pelotão da frente, a comandar.

Eu sei, uma pessoa nem sempre pode tudo quanto quer. Por isso os anos vão passando e é assim: tudo na mesma. Chegados à beira da sepultura, continuamos o mesmo fulano de sempre, com os mesmos defeitos, os mesmos pecadilhos. Ânsia de tudo e de coisa nenhuma. Vá lá a gente entender um homem.

Depois, fincaram-nos na cabeça a ideia de que éramos livres, quando da liberdade (verdadeira) muito pouco uso fazemos. Claro que somos livres de nos deitarmos da rocha abaixo. De fazermos dos poucos dias os muitos infernos. De... De facto dependemos muito do signo zodíaco, da espécie de navegação em que nos habituamos a navegar. Do RH negativo que circula nas veias. E do tempo. Do Tempo, principalmente – esse caldo em que todos mergulhamos e nos sustenta o cada instante em que nos extinguimos. A partir da velhice, Jesus, como nos infernizamos (!) pois nos acontece toda a sorte de malas-artes: desde as dores nos lombos, ao cair dos dentes, às pregas da cara que nos põem mais dez anos no canastro. É no coração que se sente tudo isto. De repente, ele começa com uma dor. Sufoca. Ameaça parar – e então temos medo. Um dia damo-nos conta de que temos medo e que estamos sozinhos. Olhamos à volta, ninguém! Outra a cara que nos olha do espelho, tão outra que ficamos ali atónitos a tentar adivinhar. Perguntamo-nos: Quem será este fulano de braços caídos, o olhar escuro, estranhamente parecido com o abominável Homem das Neves ? Encontrámo-nos alguma vez ? Onde ? Em todo o caso, podia ser meu avô...

*

As aves pousaram todas juntas no telhado da casa onde guardo as sementes de girassol. Vieram em bando. Pousaram. Então ouvi ladrar os cães do lado de lá dos muros, como sentinelas que passam palavra, e fiquei a pensar, por momentos, nas relações misteriosas entre os seres. Reparei melhor, e as aves já lá não estavam. Os cães calados, e um vento sul que talvez tenha escorraçado os pássaros. Interroguei-me se este vento não teria empurrado a luz mais para norte, pois me pareceu que a sombra das chaminés já não fazia um cinza tão alongado naquela direcção. Então apareceste à porta do jardim trazendo nas mãos uma romã cortada ao meio – as sementes cor-de-rosa como a boca de mulher num sorriso. Neste momento, não duvidei que a tua aparição tinha a ver com a vinda das aves, o ladrar dos cães e com tudo o mais...

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Galera,

31 de Dezembro

Será obrigatório falar só de coisas importantes num documento desta natureza? Penso que não. O dia é feito de tantas malhas quantas o acontecer decide. Assim, hoje começou por vento norte e violento, prosseguiu com eu levar a Linda ao Hiper Modelo e a entrar, a dar dois dedos de prosa, no estaminé do Meireles com cheiro ao bric-à-braque que ele vende. Acabou com a minha mão entalada no portão da garagem, comigo a gemer e a praguejar agarrado à mão. Destas coisas se fazem os dias dos mortais. Quanto aos imortais, perguntai aos teólogos. Eles sabem tudo, eles sabem tudo, eles sabem tudo e não explicam nada ( para ser cantado com música do Zeca Afonso... ).

© Fernando Aires, Era Uma Vez o Tempo – Diário IV, Lisboa, Edições Salamandra, 1997

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