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Brás Garcia Mascarenhas nasceu na Vila de Avô junto à Serra da Estrela em 1596. Foi estudar para Coimbra mas teve de fugir para Madrid perseguido pela justiça por ter cometido um crime. Viajou por vários países da Europa e fixou-se algum tempo eno Brasil, regressando a Portugal na altura em que D. João IV é aclamado rei. Participou activamente nas lutas pela independência contra os Espanhóis e, sendo acusado de alta traição, foi preso. Absolvido pelo rei devido à falsidade das acusações, termina os seus dias escrevendo a epopeia em vinte cantos e oitava rima Viriato Trágico. Além desta obra, escreveu ainda Ausências Brasílicas e Labirinto do Sentimento na morte do Sereníssimo Príncipe D. Duarte, actualmente desaparecidas. Morreu em 1656. OCASIÃO CANTO PRIMEIRO ARGUMENTO Toca-se a causa da Romana guerra, Que o brio Lusitânico oprimia, Pinta-se o Templo da Ocasião, que encerra De Luso a mais antiga Baronia: Descreve-se Viriato, a vida, e serra, Donde Pastor com súbita ou sadia Os Romanos investe, os seus socorre, Vencedor se retira, e Lísio morre. 1 Canto um Pastor, Amores, e Armas canto, Canto o Raio do monte, e da campanha, Terror da Itália, e do mundo espanto, Glória de Portugal, honra de Espanha: Triunfante da Águia, que triunfando tanto, Tanto a seus raios tímida se acanha, Que à traição, só dormindo, o viu rendido, Porque desperto nunca foi vencido. MILÍCIA ANTIGA CANTO SEGUNDO ARGUMENTO
Pinta-se a militar Antiguidade,
Ganha o Luso a bagagem do Romano, Dá a Servílio, e Sílvia liberdade, Briséu recolhe, e socorre Albano; Desce da Serra, como tempestade, Vence o Questor, restaura o Egitano, À Serra se retira brevemente, Triunfa nela, e exercita a Gente. 3 Há dezanove séculos inteiros, Que as Armas de Viriato floresceram; E ainda agora em bons livros, e letreiros, Se reprova, o que mal dele escreveram. Tempo virá, que frustre lisonjeiros, E lisonjeados, que favor lhe deram, Cada qual com valor faça o que deve, Porque de quem mal obra, mal se escreve. ANTIGUIDADE CANTO TERCEIRO ARGUMENTO Os Feines de Cádis duas vezes Vencidos pelos fortes Lusitanos A Espanha sem os Cartagineses, E os Cartagineses aos Romanos. Ajudado Aníbal dos Portugueses Em várias partes vence os Italianos. A ruína vingam do Império Peno Baucio, Apimano, Cesaron, Canceno. SURPRESA CANTO QUARTO ARGUMENTO Descreve-se a Milícia Portuguesa, E amor, que à pátria têm quem se desterra. Entre a Gente do campo, e da aspereza Há dissenções, sobre o deixar da serra. Ganha-se a Bobadela por surpresa, Dela se move contra Aufrágia a Guerra; Depois de vários transes se restaura, Libertando Crisalva, e Felisaura. 24 Antigamente sobre grão batalha Grande Reino mui presto se perdia; E agora em torno de qualquer muralha Meses e anos aloja a Infantaria. Muito trabalho dá, pouco trabalha Em batalha campal a Artilharia, Que logo se o contrário avança a ela, E seu Dono se opõem a defendê-la. EMULAÇÃO CANTO QUINTO ARGUMENTO A louca Emulação se vitupera, Louva-se a Tradição, e brevemente Se mostra o que entre Douro, e Tejo era Da nossa Lusitânia antigamente. Com os Romanos há batalha fera, Vence depois de rota, a nossa Gente; Morrem Filo, Servílio, e Rosamido, E se descreve o Templo de Cupido. 5 Competiam na Corte de Castela Merecimento; e dinheiro certo, E de ordinário se antepunha nela Todo o rico risonho ao pobre esperto. Tanto dar tanto pode empobrecê-la, Que da Corte caminha a ser deserto, Que donde falta o prémio a quem milita Nem habita a razão nem gente habita. TRAIÇÃO CANTO SEXTO ARGUMENTO Esmalta-se a Coroa Lusitana De Varões, que em seus Cismas a Ilustraram; Pinta-se o Inverno, e cultura Hispana Mostra-se a paz, que antigamente usaram: Morre à traição a Gente Turdetana Com Apimano e Baucio, a que enterraram Viriato, Balaro e Vandermilo, E Grisaldo, salvando a Órmia Eurilo. 10 Em todas as nações houve desgraças De traidores, de inveja, e de interesse, Que Reia mataram, que venderam Praças; Não houve Português, que tal fizesse. Em vão pobre Castela, estudas traças De enganar, e atrair quem te conhece: Elas te deram o que tens perdido Porque achaste a Viúva sem Marido. VINGANÇA CANTO SÉTIMO ARGUMENTO A Céltica, a Vingança, o Templo antigo De Marte se descrevem brevemente. A Carpetânia dá cruel castigo, Enquanto Galba foge à Lusa gente: É posta por Vitélio em grã perigo, Viriato a livra, fica-lhe obediente; Vitélio a segue, e morre em grã cilada Donde toda sua Gente é degolada. 7 Provada está contra a Romana Gente A traição, de que usou com dobre trato; Justiça há-de pedir sangue inocente, Vejamos, que vingança faz Viriato: Porque passando pressurosamente A convocar o bélico aparato, Por toda Lusitânia discorria Publicando a traidora aleivosia. FORTUNA CANTO OITAVO ARGUMENTO Define-se a Fortuna, e se retrata O corpo, gesto, e partes de Viriato, Que o Questor em campanha desbarata, E da Fama se pinta outro retrato. Serralvo a muitos dos Romanos mata, Catão de Galba acusa o dobre trato; Vandermilo, e Balaro, a seus amores Tornam, sentindo novos desfavores. 18 Mas não viu nem verá Pastor, que esteja Como o nosso Pastor acreditado Nem que a Pátria melhor ampare, e reja Apesar de nascer desamparado. Tempo é já que de nós descrito seja, Não da sorte que o vemos retratado, Se não como o descrevem os melhores, E mais acreditados Escritores. VALOR CANTO NONO ARGUMENTO Depois de meia Espanha saqueada Viriato de Pláucio se desvia, Que por fugida a retirada, Perde nela a melhor Cavalaria. Vence Órmia a Filo, Flora é desprezada, E depois morta, e rota a Infantaria De Pláucio, cujo bélico aparato Em batalha campal vence Viriato. 42 Viriato, que de alto considera, Que em campo raso pelejar procura Vencê-lo nele por astúcia espera, Que sempre astúcia foi mãe da ventura. Desce à campanha, os passos acelera, Finge temor, e a grã valor conjura Os seus, que marcham advertidamente Na confiança do audaz Regente. GOVERNO CANTO DÉCIMO ARGUMENTO Sobre os campos de Ourique, e na Campina, Que está junto a Viseu, os dous Pastores Cláudio e Nigídio vêem sua ruína, Grã despojo deixando aos vencedores. Descreve-se Espanha a Neptunina Costa, e quantos governos há melhores: Três, Maurício, Lísias, e Deotaro Morrem; Metelo faz um feito raro. 81 Enquanto, inda assombrado navegava, E Cádis lagrimosa o recebia, Viriato a Campanha saqueava, E do despojo os seus enriquecia. De terra em terra triunfando andava, Pirâmides de monte em monte erguia Com bandeiras contrárias por memórias De tantas, e tão célebres vitórias. PROSPERIDADE CANTO UNDÉCIMO ARGUMENTO Sobre a Serra da Estrela faz Viriato Sua fama voar sobre as estrelas: Festas de tão magnífico aparato, Como ela em si viu, não virão elas: Altivo Colicéu, pomposo ornato Cavaleiros estranhos, damas belas, Espectáculos mil em terra, e agora Se cantam, rematando o canto em mágoa. 82 Que eram Dictaleão, Minuro, Aulaces, Cabeças de Vaceos, Belos, e Tícios, Que atraídos de seus feitos audaces Vem servi-lo em seus marciais exercícios; E querem logo a seus olhos, e faces, Na justa dar de seu valor indícios; E entrados nela, sem que se dilatem, Prosperamente mais de trinta abatem. RESULUÇÃO CANTO DUODÉCIMO ARGUMENTO Trezentos Lusos vencem mil Romanos, Serralvo só a muitos desbarata; São cativos seiscentos Lusitanos, Donde o Templo do Medo se retrata: As mulheres os livram de seus danos, Morrem Alarco, e Silo; Órmia se mata: Pela vingarem, Carpetânia abrasam, Metelo pena, os quatro amantes casam. 1 Resoluções de amor, e Marte canto, Gentis donzelas, mui atentamente Escutai este lagrimoso canto Merecedor de mais altiva mente. Quem contra vós na rua, praça ou canto Injustas queixas dá, murmura ou mente: Se dei algumas a provar me esforço, Que há em mulheres varonil esforço. CONSELHO CANTO DÉCIMO TERCEIRO ARGUMENTO Vinga-se a morte de Órmia no Castelo. Que de sua tragédia viu o ensaio: Dá mau conselho Aulaces a Metelo, E dá Metelo bom conselho a Caio. Viriato por não poder vencê-lo, Abrasa meia Espanha, como um raio: Lis bela com astúcia pensada, Se casa, e fica Cloride infamada. 31 Ante Viriato humilde se apresenta, E lhe diz: Grã Monarca Lusitano, Cuja prosperidade o Céu aumenta tanto à custa do crédito Romano; A ti me traz, a fúria da tormenta, Que no mar passo do fraterno dano, Mais que em meus desamparos, e inocência, Fiada em tua liberal clemência. RETIRADA CANTO DÉCIMO QUARTO ARGUMENTO Enquanto Fábio anda em romarias, Lhe degola Viriato a melhor gente; Assalta-o por descuido das Vigias, Retira-se Viriato felizmente. Mostra o Vulgo encantado entre águas frias Naia de bela a Cláride inocente; E Viriato na caça, que apetece, Pera sonhar portentos, adormece. 25 Marcha Viriato, marcha a crueldade, O raio, a destruição, o fogo, a ira. Porque tudo executa sem piedade Em toda a parte a que as armas vira Fábio a quem chega a pública verdade, Aonde implora a Hercúlica mentira, Blasfema a devoção, parte indignado Chega corrido, e sofre magoado. SONHO CANTO DÉCIMO QUINTO ARGUMENTO Vê sonhando as futuras Monarquias Viriato de Godos, e Romanos, Árabes, e Espanhóis, que em fantesias Sonolentas se vêem os bens, e os danos. Venturas, desventuras, profecias, Que há da restauração dos Lusitanos, Seu antigo valor, e novo estado Lhe conta um solitário magoado. 24 Os bosques, em que está, vê deleitosos A Ceres loura e a Flora jardineira, Vê nascer entre os rios caudalosos Nobre Vila em península guerreira, Que com três edifícios sumptuosos Ponte, Castelo, Igreja, honrando a Beira, Enobrece Dinis, segundo Brigo, Novo Restaurador do reino antigo. DIVERSÃO CANTO DÉCIMO SEXTO ARGUMENTO Com paz fingida, que a Popílio trata, O diverte o Monarca Lusitano, E depois em campanha o desbarata, Donde salva Apuleio a Coriolano. Com diversões a Guerra se dilata, Em que se vence outro Pretor Romano: Com assolações várias se discorre A Bética, e Grisaldo em Cádis morre. 9 Viriato, que se acha tão frustrado, E tão perto do próspero inimigo, Sem exército seu, nem coligado. Que o tire com honra do perigo, Por se não retirar mal reputado, As espáduas volvendo a tanto Amigo, Nem se arriscar a ser acometido, Enquanto se não acha apercebido; ROTA CANTO DÉCIMO SÉTIMO ARGUMENTO Pompeu rompe Viriato, que ciente Se retira mais cauto, que medroso; E animando outra vez a rota Gente Torna presto a vencer ao vitorioso. Ganha a rebelde Utica felizmente, Castiga os Batestanos rigoroso; É Messalina origem de seu dano, Salva a Cloride bela Coriolano. 12 Branca, e púrpura estava toda Espanha De ossos, e sangue, seco, e derramados, Sem haver nela campo, nem montanha, Que não fosse um sepulcro de soldados. Acesa a guerra, estéril a campanha, Desterrada a cultura, os bens roubados, Parecia um teatro de Mavorte Negro painel, de macilenta morte. REPUTAÇÃO CANTO DÉCIMO OITAVO ARGUMENTO Fábio com grande Exército Romano Se encontra com Viriato na corrente Do Bétis, em que o forte Lusitano O irmão lhe fere, e mata muita gente. Morrem Curio, Serralvo, e Coriolano; Persuade Aulaces Messalina absente, Que se saia da Ilha, em que desvela, E desposa-se Eurilo com Lisbela. 13 Bastou só que Viriato experimentasse Pequeno desar dela irrepreensível, Pera que logo Roma imaginasse, Que o podia vencer sendo invencível. Antes que Febo no Equinócio entrasse, Entrou na Espanha um Exército incrível, Nunca tão grande o viu, nem tão luzido, Do Cônsul Fábio Máximo regido. SÍTIO E SOCORRO CANTO DÉCIMO NONO ARGUMENTO Em Campo aberto a Gente Lusitana Com grande estrago ao Cônsul desbarata; Socorrido depois cerca Erisana, E vendo-se perdido, pazes trata: Por afrontosas à Nação Romana, Presto o vínculo delas se desata; Rompe a Guerra depois com dobre trato O perjuro Cipião, frustra-o Viriato. 37 Vinha o robusto Marte Lusitano Atrás de todo o Exército arrogante Posto a cavalo entre Briséu, e Albano, Que assistindo-lhe vão um pouco avante De ponto em branco armado ao modo Hispano Alta a Viseira traz, fero o semblante, Empunhando o bastão, que tanta gente Por amor, e temor segue obediente. TRAGÉDIA CANTO VIGÉCIMO ARGUMENTO Pujante marcha o Lusitano ousado, Que em a Roma passar se determina. Nos altos Pirinéus se acha cortado, E as férteis faldras deles arruina. Em sua tenda à traição é degolado Mata-se o matador, e Messalina Fazem-se exéquias dignas de memória Queima-se o corpo, e dá fim a História. 5 Mal acabaram Heróis tão famosos, Sobre a fortuna os ter favorecidos, Padecendo tormentos afrontosos, Uns por Tiranos, outros por vencidos. Igual na morte, e feitos valerosos Foi Viriato aos mais esclarecidos; Na origem dela não, se não me engano; Porque não foi vencido, nem tirano. |
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