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DE MÁRIO CLÁUDIO A VIRTUDE DA CASA
Para este empreendimento, o romance A Quinta das Virtudes, dispunha Mário Cláudio de duas possibilidades de legitimação, que, sinalizando a finalidade e fundamentando o interesse do romance, definiriam os termos da responsabilidade do romancista. A primeira respeita á época histórica: entre 1757, data da fundação da Casa das Virtudes, e 1853, o ano da morte da rainha D. Maria II, em que a narrativa se conclui, decorre um período de transformação da sociedade portuguesa e que marcou decisivamente o Porto: revolta dos tanoeiros, aborguesamento progressivo da fidalguia, lutas liberais, Cerco do Porto, Maria da Fonte. A segunda respeita à matéria romanesca: a crónica da linhagem, como género, e a organização pela genealogia, como principio estruturador, constituem caminhos válidos, ou pelo menos disponíveis, de produção da narrativa do romance. A primeira possibilidade justificaria um romance histórico, entendido no sentido estrito da classificação, se o tem: não nos levaria além da crónica da época e da ficção como reconstrução do passado exposto aos olhos do presente para exemplo e ilustração. A segunda é literária: a casa, como metáfora da família, é um motivo, consagrado pela tradição, apto a representar o poder corrosivo do tempo, e sobretudo capaz de abrir o caminho ao romance para propor uma leitura da História, o que, em consequência, compatibiliza esta segunda possibilidade com a primeira. Mas o essencial é que ambas actuam antes do romance é independentemente dele, e acabariam, de modo perverso, por diminuí-lo ao legitimá-lo, se ele, não respondendo senão com elas, não fosse mais que a exibição que as torna presentes e, afinal, óbvias. A Quinta das Virtudes é, porém, mais que isso, e é mais que isso no preciso e único sentido que interessa ao romance: não desprezando tais possibilidades de legitimação e, aliás, apoiando-se nelas de começo, o romance de Mário Cláudio conduz a específica responsabilidade que assume ao ponto de não aceitar nenhuma forma de legitimação senão a que ele próprio constrói. (...) A.B.B., Público, 13/11/1990 Mário Cláudio, A Quinta das Virtudes, Quetzal Editores, 1990. Poderá ser surpreendente para quem se habituou a uma escrita de vanguarda como a de Mário Cláudio, ou às suas biografias romanceadas das nossas complexas modernidades, onde o propósito «Informativo» serve de desafio à criação de um estilo ficcional, formulando a partir de uma norma do laudatório, da secura documental ou da tentação da hagiografia ou da figura exemplar este romance que, pelos ambientes, temas e aspectos mais evidentes dá linguagem nos remete para o romance pós-romântico, camiliano, de Júlio Dinis ou mesmo de Arnaldo Gama. A nota do historicismo, reposta em voga por uma certa pós-modernidade muito actual, também vem a escorreito propósito. Contudo, o que nos parece magnificente, nesta experiência de uma moldura de roman-fleuve a desaguar no século XIX, é a exaustiva apropriação do que poderíamos chamar o estilo descritivo da crónica não apenas a apresentação do ser das coisas, mas esse contar repousado da crónica digressiva, tão adversa ao pretérito perfeito, atendo-se em todas as temporalidades do quadro, da perspectiva ocular, da recomposição de um assado historicamente localizável e que, por isso mesmo, se reconstitui de indeterminado lugar do tempo, como que num percurso de uma galeria de retratos e de paisagem pictóricas. No conjunto, o resultado é o de um painel barroco, de múltiplas perspectivas, retocadas numa temporalidade cubista, onde na moldura do Porto de setecentos para oitocentos, destacando uma família e a sua casa, com todas as lateralidades geneológicas, se faz uma crónica de mentalidades, de quotidianos, de crenças e saberes, de vivências. D.S. Bruno, Diário de Notícias, 06/01/1991 DE MÁRIO CLÁUDIO TOCATA POR UM OUTRO TEMPO O novo livro de Mário Cláudio constitui uma incursão ficcional no período de consolidação do Estado Novo e da mentalidade que ele representou. Está muito longe de ser um libelo político ou uma obra de tese sobre essa época da vida portuguesa, que corresponde ao princípio da queda do império. É, isso sim, uma narrativa muito bem construída, na qual duas personagens centrais António e Maria namoram e casam, vindo entretanto a Lisboa visitar a célebre Exposição do Mundo Português, acontecimento emblemático desse período da História nacional. Ficcionista, poeta e dramaturgo, Mário Cláudio é funcionário superior da Secretaria de Estado da Cultura, no Porto, e presidiu à Comissão para as Comemorações do Centenário da Morte de Camilo Castelo Branco. Distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da APE pelo seu livro Amadeo, uma espécie de biografia ficcionada do pintor português Amadeo de Souza-Cardoso, nome referencial da modernidade pictórica portuguesa do princípio do século, Mário Cláudio publicou depois Rosa e Guilhermina, respectivamente sobre a ceramista Rosa Ramalho e sobre a violoncelista Guilhermina Suggia. Esta trilogia confirmava a originalidade do seu projecto como romancista e também a vocação e o gosto para olhar Portugal e a nossa maneira de ser colectiva a partir do Norte. Os livros seguintes acentuaram os contornos desse projecto, embora neste momento Mário Cláudio se confesse interessado em deslocar o eixo desse olhar para outros lugares. O escritor afirma que, «de todos os livros que escrevi, este foi o menos vivido antecipadamente, o que não quer dizer que foi o menos sentido. Posso talvez dizer que não foi talvez sonhado como os outros. Surgiu-me, no final, como um livro quase milagrosamente acabado. Vivi-o de uma forma não apaixonada. As figuras emblemáticas. Um traço comum aos livros de ficção mais recentes de Mário Cláudio é o recurso à pesquisa e investigação documental, que se torna muito evidente na trilogia e em A Quinta das Virtudes. «Também neste livro explica houve um trabalho de pesquisa documental. Só que os documentos já estavam na biblioteca da família, ou na biblioteca da memória. Deste modo, pretendi construir mais um esboço do que um retrato.» (...) José Jorge Letria, Tempo Livre, II, Janeiro de 1993 DE MÁRIO CLÁUDIO O CAIA E AS MISÉRIAS NACIONAIS Em 1872 Eça de Queirós escrevia nas Farpas que «É justo que pensemos um pouco na Pátria. Porque enfim, temos uma pátria. Temos Pelo menos um sítio. Um sítio verdadeiramente é que temos: isto é uma língua de terra onde construímos as nossas casas e plantamos os nossos trigos. O nosso sítio é Portugal». Era um sinal evidente de descrença na capacidade de existência de Portugal como país autónomo no seio das nações. Algo que uma geração (a de 70) tinha interiorizado como a prova evidente do falhanço de Portugal como Pátria. O pequeno conto «A Catástrofe» (incluído no livro O Conde D'Abranhos, ed. Livros do Brasil), que era o esquema básico de um livro que Eça de Queirós planeava escrever com o título A Batalha do Caia, era mais uma aventura em tomo Da profunda obsessão decadentista deste país que sonhara com novos mundos e que se esquecera do seu próprio território. Tudo temas que um dos mais importantes romances da literatura portuguesa, Os Maias, colocaria no divã das dúvidas: Portugal existirá, ou tudo não passa duma sensação de existência? Ou melhor, ainda valerá a pena existir? Estará à beira do abismo ou ainda não descobriu que está lá? Esse trauma que passa por toda a obra de Queirós, como de outros autores da época, está perfeitamente demonstrado em «A Catástrofe» (curiosamente o título de um dos capítulos da História de Portugal, de Oliveira Martins, dedicada ao trauma central do que a geração de 70 exacerbará: com o desaparecimento de D. Sebastião e Camões a Pátria ficou de luto perpétuo, porque eles eram a Alma da ressurreição de Portugal). O romance que ficou por cumprir, A Batalha do Caia (pelo menos o que se pode presumir a partir de «A Catástrofe») era initavelmente um livro sobre a miséria nacional, que perdera o sangue em Alcácer Quibir, e que não tinha encontrado soro para renascer do mundo dos sonhos e dos mitos. A Batalha do Caia seria o palco de uma invasão espanhola (que destruiria de vez o nosso angustiado e caduco sistema político, económico e social), que depois de humilhar totalmente a Pátria, permitida a regeneração. Não feita através de valores cada vez menos portugueses, mas sim através da recuperação do Portugal «autêntico». A catástrofe seria assim como um terramoto que tudo devasta, mas que permite reconstruir tudo do nada. Como se sonhava na revolução francesa... Mário Cláudio, através de As BataIhas do Caia, parte do texto de Eça de Queirós, desenvolvendo-o e cruza-o com os últimos anos do próprio Eça, da sua lenta agonia, e da sua própria redenção. É neste simbolismo (a morte da Pátria ou do escritor são o passaporte para a regeneração) que se encontra a maior virtude deste romance. Parece óbvio que Eça, se tivesse escrito A Batalha do Caia, teria sido devastador e extremamente polémico, e talvez tivesse escrito o romance que ombrearia com Os Maias: sobre um país que morre lentamente de fadiga, minado pela doença, navegando ao sabor das boleias sucessivas que o mundo lhe deu. Sobrevivendo mas não vivendo em plenitude. (...) Fernando Sobral, Diário Económico, 09/01/1996 |
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