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MORTE E MOVIMENTO

De Orlando Neves, escritor polifacetado que à poesia tem dedicado muito do seu esforço criador, sobretudo de há uns sete ou oito anos a esta parte, temos nova recolha poética: «Mar de Que Futuro» (Sol XXI, 1993), a cujo original foi atribuído, pela Câmara Municipal de Tondela, o Prémio Paulo Cid 1992. Os quarenta e quatro poemas que constituem este volume completam um discurso – aliás bem estruturado e com prolongados momentos de superior qualidade estética – sobre a presença da morte. Mas também sobre o silêncio e as palavras. Mas também sobre o desgaste e a ruína das coisas, sobre a sua mutabilidade constante. Mas também sobre a «cerimónia do viver» (p.11) num império de desarticulação, de condição maximamente instável.

Tudo isso passa por uma prospecção em torno daquilo a que o autor chama, em título de uma das composições do seu livro anterior, «Decomposição – A Casa» (1992), «o íntimo das coisas», isto é, por uma atenção muito particular aos murmúrios e estremecimentos do universo («Toda a paisagem está contra / mim, que a ouço, louco de terem queimado / os óleos do silêncio, o exacto / canto único que me respirou eterno» (p, 16), tal como pela atenção, por igual intensa, ao destino do ser perante o fluir do tempo e a degradação do envolvente. Tudo isso é sustentado através de um itinerário inventariante («não posso esquecer nada», p, 18), que abrange, para além da referência frequente, aos mundos vegetal e animal, a materialidade mais elementar (a terra, o barro, as pedras, as montanhas, a neblina, a brisa, a água, os rios) e, também a corporalidade de objectos domésticos ou de pequenas construções da ambiência rural (mesa, espelhos, camas, portas, salas móveis, fontes, lareiras, tanque, alpendre, poços, roldanas, celeiros). Tudo isso é mobilizado sobretudo, pela consciência – algo melancólica, mas iluminada por uma sabedoria, versátil e serena, transposta na própria acção de (re)conhecimento – de que, no impacto de uma realidade sufocante, dispersa e talvez inútil, «só de restos se consagra o tempo»:

Só de restos se consagra o tempo, força
cerrada na inutilidade destas
cores campestres, quando o sol em Novembro
escurece os sobreiros. Só de restos me
espera a cerimónia de viver,
trânsito e transigência do silêncio
ocultado no meu corpo. Só de restos
o trespassa o tempo, máscara e manto. Morro
muito antes da morte, sem saber se os anjos
foram gaivotas hirtas no piedoso
musgo dos rios ou se hão-de ser maçãs
ou ciência, loendros ou lembrança,
inocentes, lúcidos sonos ou oblata
de seda, cedida a deus, pagamento
da paz. Só do que chega ao fim, se corrompe
e apodrece, se imagina o princípio,
a majestade das coisas, o silêncio
irrevelado que o corpo desconhece.

(p. 11)

A expressão «morro / muito antes da morte» patente na composição acabada de transcrever, assim como os versos de SaintJohn Perse que antecedem a colectânea, versos onde se refere uma certa «hora talvez a última», podem iluminar o que já sugerimos: que o corpus temático proposto por Orlando Neves em «Mar de Que Futuro» tem como nódulo central a questão da morte ou, o que dá ao mesmo, a questão dos «obsessivos mortos» (p. 12) que povoam o imaginário do poeta. Uma «pressentida morte» (p. 19) que se confunde com a angústia do fim de tudo ou que se cristaliza, ao nível da expressão, em sucessivas alusões a penumbra, deserto, noite, sombra, vazio. Uma «pressentida morte» que mergulha na intuição da essencial relatividade do que acontece ou que se subentende em determinados momentos de consonância entre o mundo envolvente e o estado de alma:

Só regresso à folhagem quando imagino
a dor que há no corpo dos poemas, rosa
que passou, verão que se afunda em terror
na derradeira confusão dos campos.
Chove agora nas borboletas e nas teias
do tédio, como chove nos meus olhos,
doentes de não saberem se as palavras
são lidadas antes ou depois das trevas.


(p. 39)

No tom predominantemente elegíaco destes poemas – um tom que, de resto, já se evidenciava em outros momentos da obra de Orlando Neves, com destaque para esse livro, aliás notável, que se chama «Regresso de Orfeu» – vai recortar-se um outro importante tópico: o do silêncio. «Atento fico ao que se não ouve», diz-se num dos textos (p. 23). «Primordial silêncio», que pode ler-se num dos poemas finais (p. 51). Trata-se do silêncio exigido para uma plena apreensão do inesperado, para a captação dessas raras vivências em que, privilegiadamente, «as coisas fulguram» (p. 47). Podem ser os instantes em que surge, para o poeta, «o alarme das palavras» (p. 53), a eclosão do próprio acto poético e o trabalho («o dorido trabalho das palavras», p. 27) de o fazer chegar ao fim: «Só o silêncio é o momento / incenso de que se reveste o infinito / limite do espanto, pedra do poema» (p. 28).

Este novo livro de Orlando Neves – infiltrado por um fio de desilusão e de cepticismo, mas ao mesmo tempo com sinais de apelo ao despojamento de tudo quanto é superficial, efémero e supérfluo («liberta-te do brilho nulo», p. 25), isto é, em trânsito para uma ascese que é também de natureza moral – constituí outro marco impressivo na caminhada de uma das mais seguras e significativas presenças da poesia produzida nos nossos dias.

João Rui de Sousa (Jornal de Letras, 3/8/93)


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