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Tomás Ribeiro: Quando eu era pequeno, havia dois príncipes da lira, cada qual com seus vassalos: eram Garrett e Castilho. Garrett imperava na corte; Castilho nas províncias. A Noite do Castelo e Os Ciúmes do Bardo recitavam-se de cor em qualquer aldeia onde houvesse morgada ou abade com ciúmes de morgado. Catão e D. Branca eram livros escassamente conhecidos nas terras altas. Depois, estes príncipes passaram à classe de professores aposentados, quando surgiram outros dois príncipes, João de Lemos e Mendes Leal. Este ganhou fama com as xácaras dos seus dramas românticos. As morgadas cantavam o

Nobre donzel, Dom Guterres,
Dom Guterres o infanção,
Por gentil donosa moira, etc.,

com soluços e desmaios. De D. João de Lemos sabia-se A Lua de Londres, nos arraiais realistas e fora. Palmeirim esteve a ponto de destronar os dois príncipes com o seu Camões. Uma poesia quente de entusiasmo nacional era bastante para erigir um monarca do génio a quem se dava, por lista civil, um exemplar do periódico em que saira a poesia.

Palmeirim gastou-se no Chiado, Mendes Leal nas tremendas batalhas de Suajo e João de Lemos na inércia de um cavaleiroso espírito posto como lâmpada sepulcral no velho jazigo dos reis.

Outro príncipe de curto reinado: Soares de Passos, que escreveu o Firmamento e o Noivado do Sepulcro, poesias a que a morte deu exagerada grandeza, como a das sombras que se estiram do ciprestal por sobre as campas banhadas de luar.

Apareceu em seguida um príncipe de mais pujança: Tomás Ribeiro. D. Jaime teve um êxito de prodígio; agitou as cabeças sonolentas de milhares de leitores. Espertou o gosto entorpecido dos versos e os brios do patriotismo. Fez tempestades no mar morto da literatura. «Aqui d’el-rei que ele não é melhor que o Camões, e o D. Jaime não pode medir-se com Os Lusíadas, como quer o Castilho!» Ainda eles, os ciclopes de um só olho crítico, formavam calúnias e sandices, e já Tomás Ribeiro descia do sólio, com a mão no nariz, por lhe dizerem o nome e as manhas doutro príncipe que chegava. Era Joaquim Teófilo Fernandes, com a Visão dos Tempos. Os localistas da capital – gente que viaja escoteira nas regiões das letras – aclamaram-no; ele, acabado o seu reinado carnavalesco, despiu o manto de príncipe e foi levá-lo ao adelo, que o alugou a Guerra Junqueiro, príncipe reinante que actualmente vive e viça. Quanto a João de Deus, outro príncipe, esse é um regente ocasional que assume as bridas quando os outros príncipes curveteiam desenfreados e se escouceiam a ver qual é mais imortal.

O certo é que todos vão passando, e D. Jaime ficou de boas avenças com D. Vasco da Gama. Pelas idades fora, se ainda houver portugueses, o poema de Tomás Ribeiro será um grito de alarme; se os não houver, será uma saudade para os netos dos que ainda conheceram pátria.

Tomás Ribeiro, ministro da Marinha, se isto te comove, faze-me almirante de uma das nossas armadas que fazem espumar o oceano.

Camilo Castelo Branco



FAÇO IDEIA

(NUM ÁLBUM)

– «A proprietária do livro
que te aqui deixo, Tomás,
é minha amiga; e verás
que não tem nada de feia.»
– «Faço ideia.»

– «É Beatriz!»
– «O nome é lindo!»
– «E o corpo? airoso e gentil!...
e aquele nobre perfil!...
e a fronte que o orgulho alteia!...
– «Faço ideia!»

– «E vai fugir-nos, poeta!...
cansada já de festins,
troca os salões por jardins,
a capital pela aldeia!...
– «Faço ideia.»

– «Não fazes ideia! enganas-te!
não pode haver fantasia
que sonhe inteira a magia
de que a beatriz se rodeia!»
– «Faço ideia!»

– «Ai fazes?!... pois nesse caso
descreve-a assim – tal e qual.»
– «Mas... sem ver o original?!...»
– «Amigo, não se arreceia
quem faz ideia!»

O meu amigo, senhora,
que a verdade não falseia,
fez assim vosso elogio,
e eu fiquei... fazendo ideia!


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