António Manuel Venda nasceu em Monchique, no Algarve, em 1968. É licenciado em Gestão de Empresas e pós-graduado em Marketing e Mercados Financeiros. Começou por publicar contos, crónicas e artigos em jornais e revistas. Em 1989, foi-lhe atribuído o Prémio Literatura na Universidade, do Instituto Abel Salazar, na cidade do Porto. No ano seguinte, no âmbito do Programa Cultura e Desenvolvimento, recebeu o Prémio de Literatura da Secretaria de Estado da Cultura e da Sociedade Portuguesa de Autores. Ainda em 1990, foi-lhe atribuído o Prémio DN Jovem «Descobrimentos Portugueses». Foi ainda distinguido com o Prémio Revelação Inasset, do Centro Nacional de Cultura, em 1991, e com o Prémio Literário Cidade de Almada, em 1996. Publicou as seguintes obras: Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade (contos, Ed. Pergaminho, 1996); Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão (novela, Ed. Pergaminho, 1997); Até Acabar com o Diabo (romance, Ed. Pergaminho, 1998); O Velho que Esperava por D. Sebastião (contos, Ed. Pergaminho, 1999).
A BRUXA DO BAIRRO ALTO DE S. ROQUE
O século ainda ia novo mas a vida, que às idades não parecia ligar muito, já andava outra vez agitada por Lisboa. Ele era milagres de Santo António dia sim dia não, ele era as pessoas a falarem do anjo que alguém tinha avistado no alto da torre da igreja de Nossa Senhora da Graça, ele era ainda outras criaturas, talvez mandadas por Deus e observadas por quem jurava a pés juntos que não eram foliões mascarados. E o bispo inquisidor, enquanto tão grandes maravilhas eram relatadas, lá se ia entretendo a mandar queimar hereges e judeus, uns por coisas vistas, outros porque, bem vistas as coisas, não haveria no reino deles necessidade.
Tudo isto, que já não era pouco, ia acontecendo ao mesmo tempo que os castelhanos arranhavam por terra a toda a hora e os franceses picavam por mar de vez em quando. E para ajudar à festa, El-Rei Todo Poderoso, o quinto João com que o reino alombava, ainda se punha a morder dentro das próprias fronteiras com impostos tais que a riqueza de jóias e vestes que à corte se via nunca antes fora assim notada. Mas o povo não era tão desligado como deixava parecer a quem o observava das varandas reais, e por isso nem a desculpa do ouro de terras de Santa Cruz o convencia de que nesses altos enxovais não figurava moeda plebeia.
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Os casos de admirar eram tantos que os novos logo abafavam outros já bem repisados. E conseguiam-no mais pela força que tinham do que pela falta dela nos anteriores, pois cada um que surgia deixava três ou quatro para trás em matéria de falatórios. Nunca se pensara que no reino pudessem vir a caber todos, mas eles iam cabendo, e isso era uma coisa que ninguém desmentia, tanto mais que Deus também não dava mostras de querer fazê-lo.
Foi por esses tempos que se começou a falar na Bruxa do Bairro Alto de S. Roque. Inês Duarte, que tinha sido o nome que ao baptismo lhe calhara, apareceu de repente aos olhos de todos como uma criatura destinada a tornar ainda mais notável aquele ano de mil setecentos e seis. Deu-se isso de forma tão espantosa que o bispo inquisidor se encarregou de a levar assim que o caso lhe chegou aos ouvidos. E decerto que não iria tardar muito a mandar queimá-la no Rossio, de bruxas e feiticeiros acompanhada, numa fogueira bem grande, que assim era ao gosto do povo, assim D. João aprovava, assim Deus não se opunha, tão-pouco o Diabo, que esse toda a gente dizia ser das chamas apreciador certo.
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A bruxa saiu à rua só com a pele do corpo, despida de cima a baixo, ou de baixo acima. Ao povo tanto fazia a subir como a descer, que os olhos viam o mesmo e a nudez não mudava vista de uma maneira ou de outra. E na frente de todos a criatura fartou-se de com as mãos dar prazer ao corpo, enquanto perguntava bem alto se por perto havia alguns homens em jeito de a comerem. E houve muitos, pois a tarde já ia adiantada e andavam muitas almas na rua, como era preceito a uma hora assim na cidade toda. Contaram-se por sete os homens que se lhe atiraram e por muito mais do que essa conta os que com grande pena lugar não conseguiram, e o mulherio gritou impropérios tais à tão diferente Inês que mais diferente a fez ainda. E houve sangue da perda da virgindade, e houve quem dissesse que um bicho assim não podia ser virgem, e houve ainda opiniões de que sendo sete os machos não havia mulher que resistisse por mais de má vida que fosse.
Ao sangue não ligou o bispo inquisidor, pois esse só queria a bruxa, sangrada ou por sangrar, que não seria por muito sangue ter que a fogueira não iria apresentar boas chamas. Já as mulheres do Bairro Alto de S. Roque ligaram, e assim lavaram a rua e desinfectaram a casa de Inês, e também varreram os vidros partidos do espelho grande do quarto, não fosse algum habitante futuro picar os pés. Para picar já bastavam os franceses, que o levasse o Diabo para bem longe do reino e dos impérios de além-mar.
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O que deixava o povo sem saber ao certo o que pensar era que Inês sempre fora uma rapariga recatada e amiga da vizinhança, tanto que dela nunca tinha havido queixas no Bairro Alto de S. Roque. Chegou a dizer-se em Lisboa que até Frei Geraldo, da Ordem Terceira dos Franciscanos, já andava metido a averiguar por conta própria o mal daquela alma. Disseram-se tantas coisas em Lisboa por esses tempos, que estavam para chegar algarvios do Algarve e nortenhos do Norte e também outros de outros lugares para verem a bruxa. Ou pelo menos a queima, já que depois do que a Frei Geraldo acontecera só os guardas do bispo inquisidor dela se aproximavam.
A mulher-bruxa, ou bruxa-mulher, como queira Vossa Alteza, D. João, Nosso Rei e Senhor, atirou-se-me para cima toda nua, pois roupa não quer e se alguém lha dá rasga-a logo! E não parava de me gritar "Padre, sou sua padre!"
E Frei Geraldo contou outras coisas ainda piores.
De três guardas houve precisão para eu daquele tormento sair! E mesmo assim teve um deles que ficar por troca comigo, e depois foi encontrado por dez companheiros que acudiram à gritaria dele, com a roupa rasgada e à bruxa igual em nudez! E o que é certo é que se tratou de um caso de violação das grandes! Até as paredes haveriam de ser testemunhas se alguém tivesse artes para lhes dar voz!
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Andavam todos tão ocupados a falarem do caso que nem estranhavam os ares do filho mais novo do ferreiro do Bairro de S. Roque, sempre metido pelos cantos e sem dizer palavra. Inês, para ele, não era bruxa e tão-pouco iria morrer na fogueira. Inês tinha ido para onde ele nem conseguia imaginar, se calhar definitivamente, e o mais certo era não voltar a vê-la nua como a vira no dia do aparecimento da bruxa ao povo e em tantas outras alturas das quais já perdera a conta.
Nesse dia, espreitando pelas frestas do telhado da casa de Inês, Crisanto viu-a sair da cama toda nua, como a bruxa tão igual a ela que até o povo fez confusão, e esse engano só ele compreendeu. Ficou de olhar suspenso enquanto ela se mirava ao espelho grande, do qual depois foram jogados os bocados. E viu-a duas vezes, no espelho uma de frente, de costas uma no quarto, e fortes foram as telhas que o impediram de à do quarto se atirar. Mas depois a respiração pareceu-lhe que lhe começava a faltar, pareceu-lhe que tudo dentro de si parava quanto Inês se vestiu e mesmo assim continuou nua no espelho. Viu-a calada e vestida e que os movimentos dela não eram acompanhados pela imagem, e a seguir começaram a sair insultos de dentro do vidro.
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Estou bem cansada de te seguir, grande vaca! Comida nunca tive, que tu em frente do espelho não comes, homens nunca conheci, que tu nunca tiveste um só que fosse, muito menos em lugar espelhado!
Inês pegou num espelho pequeno que tinha à cabeceira, mirou-se e não se viu, e do grande veio de novo a voz que a fazia tremer.
Estou farta de te seguir! Quero é sair daqui para fora, que ao fim de dezanove anos qualquer uma perde a paciência.
Depois a imagem calou-se e pôs-se a fazer caretas. E Inês, já em desespero, tentou dar-lhe um pontapé, mas a perna foi-se-lhe através do espelho e a imagem aproveitou para puxá-la toda e saltar para fora ao mesmo tempo. Ficou então em liberdade e logo partiu a prisão de Inês com uma cadeira que estava mais à mão e foi à cozinha encher a barriga com o que havia para comer. Fez cara de quem tinha gostado e saiu à rua na figura que deixou o povo de boca aberta. Chamou pelos homens, sete acudiram, e muitos mais tiveram pena de para eles não haver lugar. Pena não teve Crisanto, que à verdade toda assistiu e só desceu do telhado quando a noite chegou à cidade.
(conto incluído no livro Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade, de António Manuel Venda - Editora Pergaminho, 1996)
O VELHO QUE ESPERAVA POR D. SEBASTIÃO
Um velho que contava histórias de encantamentos e avisava as pessoas do regresso de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro tinha-me ensinado a fórmula para sonhar com a mulher que haveria de casar comigo. Dois ou três anos antes. Bastava contar nove estrelas durante nove noites seguidas e dormir, à espera do primeiro sonho. O velho, sempre que o tempo estava de feição, ia logo bem cedo para um miradouro de onde se conseguia avistar o mar nos dias de Sol, lá longe, a mais de vinte quilómetros. D. Sebastião haveria de surgir de repente do manto cinzento de nevoeiro, talvez montado num cavalo, ou numa serpente gigante, ou então numa máquina desconhecida. E eu ia muitas vezes junto, não tanto para ver se assistia à chegada do rei, que para mim tinha sido um sujeito um bocado para o parvo, mas na ânsia de ouvir as coisas dos encantamentos. Foi numa dessas esperas de loucura que o velho me contou acerca do poder das estrelas.
Para mim, acabou por ser muito difícil repetir a contagem durante nove noites seguidas. Umas vezes, quando estava quase a acabar, vinha uma noite de céu nublado. Noutras, esquecia-me à Sexta ou sétima noite e era preciso começar tudo de novo. Dessa maneira, só ao fim de seis meses é que consegui cumprir com todas as regulamentações do ritual. O velho estava triste por esses tempos, muito desiludido com D. Sebastião, que teimava em não aparecer. Já eu não, nem pensava nisso, esperava apenas pelo meu sonho. Na noite marcada deitei-me mais cedo do que o costume e tive de usar algumas artimanhas para dormir. O velho dizia que imaginar lutas de gafanhotos, por exemplo, fazia dormir. E a verdade é que eu adormeci a meio de uma dessas lutas. Mas depois, durante o único sonho que se me chegou, nada, nem um sinal do que eu esperava. Apenas um estranho mundo de pedras que passavam a vida a representar peças de teatro.
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Eu ficava o tempo todo a olhar para ela, perdido na última fila, à espera de lhe descobrir qualquer parecença com a pedra mais bonita do meu sonho já com dois ou três anos. Tanto que cheguei a ser tomado pelo aluno mais atento da turma. Pelo menos naquela disciplina intragável do programa do unificado que parecia não interessar a mais ninguém, apesar de ter uma professora tão jovem. E em Junho terminei com uma nota bastante alta, superior à de qualquer outra disciplina. Porque naquela, desse lá por onde desse, eu não podia falhar. Mas depois, pelo recomeço das aulas em Outubro, o mundo pareceu querer desabar-me em cima. Logo no primeiro dia, soube que ela tinha mudado de escola e que eu já não a iria apanhar como professora numa das disciplinas desse ano.
Acabou por ser, no entanto, um tempo de alguma esperança para mim, porque me convenci, ou pelo menos tentei convencer-me, de que a esqueceria facilmente se não a visse. Só que um dia dei comigo a caminho da secretaria, sem saber bem o que estava a fazer, completamente perdido em três ou quatro pensamentos por onde ela saltitava sozinha. A funcionária disse-me que só me poderia mostrar a ficha da minha matrícula, apenas isso, mas depois de muita insistência e das desculpas mais lógicas que naquele momento consegui inventar tornou-se mais maleável. Deu-me o número de telefone que eu tanto queria e mandou avançar o próximo aluno.
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Às vezes, o velho que esperava por D. Sebastião fazia os pássaros irem pousar-lhe nos ombros, ou nas mãos. Durante os anos todos que o conheci, tentei imitar-lhe os ruídos que fazia com a boca e os gestos até ao mínimo pormenor. Mas sempre em vão, porque nunca um pássaro se aproximou de mim. Nem iam ter com o velho se eu não estivesse um pouco afastado.
Os pássaros são muito desconfiados dizia-me ele. Só eu demorei quase trinta anos a convencê-los de que sou amigo deles.
Então e eu, ainda tenho de esperar esse tempo todo?!
Pode ser que sim, mas também pode ser que não. Pode até ser que nunca venham a gostar de ti.
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Nas primeiras chamadas, sempre que a voz dela surgia do outro lado da linha, eu ficava uns momentos a ouvi-la perguntar quem era, e depois desligava. Ou desligava ela. Era então que as recordações me assaltavam mais insistentemente, sem me darem um só momento de paz. Invadiam-me os pensamentos e os sonhos, e até me apareciam nos pesadelos, onde eu a via sempre a fugir de mim, ou a atirar-me pedras. O desejo de voltar a ligar-lhe não me deixava, parecia que só isso me iria sossegar, como se eu não soubesse que se tratava de um ciclo sem fim, onde tudo acabava por se repetir.
Uma vez veio um miúdo atender e eu atrevi-me a falar, com uma voz bastante grossa.
Eu sou o filho dela. E o senhor?
Parecia ter à volta de sete anos. Algum tempo mais tarde, acabaria por dizer-me que tinha oito.
Sim, quem é o senhor?!
Fiquei um pouco a pensar, com o miúdo impaciente à espera de uma resposta. E depois disse-lhe que me chamava D. Sebastião e que fazia colecção de pernilongos e de lenços de assoar, mas que não tinha para a troca. Para lhe explicar o que era um pernilongo, demorei quase um quarto de hora. E só ao fim desse tempo todo é que percebi que nem eu próprio sabia. Acabei por lhe dizer que era um bicho com umas pernas muito compridas, sete pernas, tão compridas que em minha casa os pernilongos tinham de estar sempre à janela com as pernas de fora.
E passam rasteiras às pessoas?
Às vezes passam.
Sim?!
Sim, mas só quando eu não os estou a vigiar.
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Por essa altura, o velho que esperava por D. Sebastião foi para o asilo. Eu passei a ir visitá-lo de vez em quando, e sempre que conseguia poupar algum dinheiro levava-lhe uma onça de tabaco para o cachimbo, para ele fumar às escondidas das empregadas. Numa das vezes, encontrei-o no jardim com uma garrafa sem fundo nas mãos. Estava a observar o céu.
D. Sebastião, aquele amaldiçoado, agora anda menos esquisito disse-me ele.
Respondi-lhe que se calhar andava, que era bem capaz disso.
Sim, ele já não liga muito a como está o tempo. Pode chegar em qualquer altura, numa manhã de Sol, ou numa tarde de tempestade, pode até chegar numa noite de poucas estrelas.
Voltei a dizer-lhe que sim e ele continuou a observar um a um todos os bocadinhos do céu que cabiam na garrafa.
Quando nos despedimos, já com a noite a cair, ele pôs-me um braço à volta do pescoço e pediu-me que o escutasse com atenção. E a seguir disse-me que um dia mais tarde, quando eu casasse e tivesse filhos, era melhor não lhes contar nada acerca das nove estrelas que traziam num sonho a mulher da nossa vida. Assim não lhes estragaria a surpresa do amor, não seria como com ele, que muitos anos antes de casar já sabia com que mulher isso iria acontecer. Nem como comigo, que ainda não a havia encontrado e já a tinha visto num sonho. Prometi-lhe que nunca haveria de contar.
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Aos poucos, ela começou a dizer mais qualquer coisa, a ir além de perguntar quem era e se aquilo se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Dizia que escutava a minha respiração, que lhe parecia ser de alguém verdadeiramente atrapalhado. Essas observações assustavam-me, porque eu pensava que ela me estava a reconhecer, a lembrar-se do aluno que alguns meses antes prestava tanta atenção ao que ela dizia, o mesmo aluno que ficava acanhado quando ia ao quadro e que se engasgava de cinco em cinco palavras ao responder-lhe a uma pergunta.
Um dia liguei-lhe muito cedo e ela, assim que percebeu que era o sujeito silencioso do costume, gritou que não precisava de despertador. E depois desligou. Eu estranhei-lhe o comportamento, porque ela nessa altura ficava sempre um bocado a falar para alguém que, apostava, ainda haveria de dizer alguma coisa. Para alguém a quem chegara a pedir desculpa pelos insultos de algumas das primeiras vezes. Para alguém que aos poucos ia ficando a saber que ela vivia com o filho pequeno, que a sua cor preferida era o verde e que não gostava nada do seu novo liceu. Fiquei sem coragem para voltar a ligar-lhe.
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O velho tinha sonhado muitos anos antes com uma mulher que dançava, de costas e com um vestido azul. Era loura, e pelos movimentos que fazia a música devia ser muito suave.
Vossemecê, nessa altura, já estava assim surdo como agora?
Não. Nessa altura eu tinha bom ouvido. Podia até ouvir a erva a crescer e os grilos a respirarem, se estivesse sozinho deitado num prado.
Mas não ouvia a música que ela dançava!
Pois não. Nos sonhos nunca se ouve nada. Alguma vez ouviste um gafanhoto guinchar no meio de uma luta?!
Dois anos mais tarde, o velho acabara por encontrar a mulher.
Foi num baile da sociedade recreativa e eu ainda era bem novo por esses tempos. De repente, descobri-a a dançar sozinha no meio dos pares, loura como no sonho e de vestido azul. E a música era mesmo suave. Via-a a dançar devagar, sempre de costas para onde eu estava.
E não teve medo de ela ser feia?
Tive, mas só até à altura em que se virou para mim.
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Eu continuava a falar com o filho dela. À Quarta-Feira. O miúdo tinha-me dito que esse era o dia em que a mãe dava aulas até tarde, e que por isso ele vinha para casa no autocarro do colégio.
Nos outros dias a minha mãe vai-me sempre buscar.
Ele contava tudo ao seu amigo coleccionador, e lamentava que só lhe ligasse uma vez por semana e que lhe pedisse para não falar nele à mãe.
E o motorista do colégio fica a ver até eu entrar em casa e fechar a porta.
Quanto aos pernilongos, o miúdo queria saber sempre mais. E assim o assunto atingiu um ponto tal que uma vez eu acabei por sugerir que falássemos antes de lenços de assoar. Mas ele não queria saber disso, de maneira nenhuma, o que lhe interessava era os pernilongos. E um dia, completamente envolvido nas minhas invenções sobre os desgraçados dos bichos de sete patas compridas, eu acabei por me esquecer das horas. Foi por isso que a certa altura notei o bater de uma porta e ouvi de novo a voz dela. O filho, meio atrapalhado, não conseguiu mentir-lhe e disse que estava a falar com D. Sebastião, o coleccionador. Reparei que ele lhe passava o telefone, mas não pude desligar. Fiquei a olhar as pessoas na rua, do outro lado do vidro da janela, e quase no mesmo instante ouvi-a perguntar quem era. Uma, duas, tantas vezes, até que reconheceu o meu silêncio e disse que chegara a pensar que me tinha acontecido alguma coisa.
(conto incluído no livro O Velho que Esperava por D. Sebastião - Editora Pergaminho, 1999)