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Sousa Viterbo: É médico, como Júlio Dinis, e também do Porto, donde os poetas, que lá não morrem como o rouxinol do amador da Menina e Moça, alam-se para outras montanhas como as cotovias quando ouvem crocitar o corvo na escarpa da serra.

Viterbo, se quisesse estabelecer-se na Rua de Santo António ou Clérigos, com écrins e chitas ou efeitos de guta-percha, poderia sustentar a sua primazia entre os poetas do Norte, sustentando-se a si da percentagem da chita e do cauchu; porém, na qualidade de médico, a reputação que lhe cabe como poeta constituí-lo-ia na posição de considerar-se o representante das vitimas do Ceará na Praça Nova.

Todos os médicos portuenses com poesia, antigos e recentes, fugiram para outros getas à morte de Ugolino, ou abjuraram a clínica. João Evangelista de Morais Sarmento foi para Guimarães, onde poetou e viveu. O Dr. Ferro casou rico antes que se lhe fechassem as alcovas dos doentes. Alheira morreu pobre, recitando os sonetos que o perderam na confiança dos seus fregueses feridos da hidropisia ou do laparão. Luís António Pereira da Silva deixou as filhas à caridade particular. Não me lembram de outros. Modernamente não há poeta algum médico no Porto. Dos que se preparam para esse funcionalismo lutuoso, a Escola Médico-Cirúrgica, no ano passado, reprovou um terceiranista que fazia versos rubros como as carnes frescas das cantoneiras que escalpelava no anfiteatro. É como está o Porto.

Sousa Viterbo, em Lisboa, de vez em quando, abria às fadas da sua mocidade a porta do seu gabinete, e para não espavorir escondia a canastra dos ossos. Depois, quando entendeu que era preciso respeitar os costumes, pensou no mais sumário expediente para de uma vez se calar. Em vez de encerrar os ouvidos como os legendários nautas à insídia das sereias, casou. E depois, nunca mais cantou. Triste coisa! Vinte mulheres colaboram em trezentas páginas de versos in-8.0 francês. Depois, vem uma só que aspira todos os aromas dessas flores até lhes fenecerem as pétalas. E o poeta vai secando como a flor, e torna-se fruto sem aroma. Tal é Viterbo, o médico, o gentilíssimo poeta que foi.

Camilo Castelo Branco



ÀS SENHORAS FIDALGAS DA CONFRARIA DE S. TARTUFO

Podeis pecar, esplêndidas senhoras,
podeis cair da tentação no abismo.
Para o pecado velho há o baptismo,
e para os de hoje, ó santas pecadoras,

há-de haver umas rezas, uns bentinhos,
a bênção telegráfica de Roma.
Eia, envolvei-vos nesse casto aroma,
e embriagai-vos nos celestes vinhos!

Não tenhais medo; o Cristo que se adora
nas vossas perfumadas sacristias
é um Cristo que vive das orgias
e que da cruz sorrindo vos namora.

Podeis arder nos fogos da impureza;
decerto que o teólogo mais fino
dirá do vosso amor que ele é divino
e que sois tal e qual Santa Teresa.

Podeis pecar. Eu sei duns níveos braços
que envolveram um dia o seu vigário,
e não foram pregados no Calvário
porque os salvou Nosso Senhor dos Passos.

Podeis pecar. Ao dar a vossa esmola,
vi tremer de vergonha a caridade;
mas que importa que chore a castidade,
se está contente Inácio de Loiola?

Podeis pecar! Vós sois as carnes alvas,
sois a grave e terrível formosura:
amais no Carnaval os Marialvas,
e durante a Quaresma o padre-cura...

Podeis pecar, podeis; agora eu
já não tenho ninguém que me proteja;
deitou-me um sacristão fora da igreja
como um cão miserável, como ateu.


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